Copa ao sol e à sombra: o Galeano avisou
Em 24 de julho de 2026 por CAMPP Recomenda.
Por: Abraão Aguilera
A ressaca pós-Copa é cruel com os derrotados. Além das feridas já lambidas por nós desde as oitavas, do fim dos recorrentes confrontos que pediam uma pausinha na rotina — com a desculpa de que só a temos de quatro em quatro anos — e da dor de cotovelo com os espanhóis, a volta do calendário de clubes costuma ser também incômoda, especialmente àqueles que voltam à realidade da gestão trágica de seu clube (como o autor, corintiano).
Bebericamos a nostalgia como um negroni: com o passar do tempo, entendemos seu amargor com maior apreço. É o que nos resta. O título deste textinho (digo, sua ideia) nasceu antes de seu corpo: uma prepotente homenagem à obra de Eduardo Galeano sobre o maior esporte de todos os tempos, uma tentativa de esboçar os percalços políticos cada vez mais frequentes que tentam, ainda sem sucesso, ofuscar a beleza e a alegria de um esporte popular. Como faz o uruguaio.
Futebol ao sol e à sombra é um livro rápido, daqueles que se leem e logo se emprestam, e que, com anseios por segundas impressões, insiste em perguntar se o comodatário já o terminou. Fala da onda de Estados pretorianos na América Latina, do Maracanaço, tece críticas contundentes à política da FIFA. Eu as endosso: que papelão! Pensar criticamente o futebol em sua dimensão de commodity é trabalho vital aos apaixonados pelo esporte.
Não é coincidência que, de Copa em Copa, o que para Galeano estava nas sombras se torne cada vez mais exposto, dessa vez sob o sol escaldante dos quase cem graus Fahrenheit da América do Norte. A suspensão da suspensão de Balogun, o Prêmio da Paz da FIFA, o intervalo de 28 minutos da final — tudo aponta para as garras do neoliberalismo em sua forma mais retumbante. Felizmente, talvez por não cogitarem a possibilidade de a felicidade e a tristeza serem também gratuitas, deixaram-nas rolar em campo, de 22 minutos e meio em 22 minutos e meio.
O futebol respirou com os azarões saindo na frente, respirou também com as viradas das seleções mais fortes sobre eles. Seu arejamento exige o protagonismo de quem o faz: os trabalhadores. Conscientes ou não disso, jogadores são, essencialmente, trabalhadores. Operam milagres em um esporte bastante contraintuitivo. Milagres movidos pela sobreposição de trabalho, sorte, luz divina (quiçá sombra divina aos oponentes).
Num aprofundamento desse olhar de apaixonado ciumento, entender como os jogadores descem funil adentro dos dashboards de alcance e lucratividade das marcas multinacionais é um processo triste, mas elucidativo. Em minha experiência, esse caminho foi Nelson Rodrigues, n’A Vida Como Ela É — espaço em que escrevia suas colunas esportivas no Última Hora, depois reunidas em coletânea —, escorando para Galeano chutar, de chapa, com elegância e força. Como Nico para Ferran.
