Ir para o conteúdo

Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

Da Lama ao Caos

Edição do CAMPP Recomenda, postado em 15 de outubro de 2025.

 
Antony Gabriel da Silva
 
Nesta edição do CAMPP Recomenda, o tema é o álbum “Da lama ao Caos” de Chico Science & Nação Zumbi. A genialidade e a autenticidade desses mestres são até hoje aclamadas pelo público e pela crítica. Da lama ao caos, do caos à lama: o magnânimo álbum, a arte revolucionária, o ato manifesto feito por homens-caranguejos. Inconfundível som e produção. Há quem diga que nessas terras não se sabe fazer música. Que pena! Não sabem que as figuras do passado também cantaram um dia, disso eu tenho certeza!
O som autêntico originado do movimento nascido em Pernambuco no ano de 1991, chamado manguebeat, reproduz com proeza uma diversidade e riqueza sonora, juntando funk, rock, ritmos afro-brasileiros e psicodelia. Podemos ouvir isso na primeira faixa — Monólogo ao Pé do Ouvido (Vinheta) / Banditismo por uma Questão de Classe —, com um contrabaixo marcante, uma guitarra com raízes no funk, mas carregada de distorção, e uma percussão com raízes no maracatu — ritmo original de Pernambuco — que se complementam durante toda a música.
Essa sonoridade marcante carrega consigo uma identidade intensa. O contexto da criação dessa obra é o que ela buscou — e busca até hoje — denunciar: a desigualdade social e a pobreza da cidade que a ONU definiu como a quarta pior cidade do mundo, Recife, Pernambuco. A cidade abriga um ecossistema de mangue rico em fauna e flora e é fonte de renda de diversos trabalhadores. O mangue é fundamental para o armazenamento de carbono, mas o descaso e o abandono ao lixo foram expostos na obra. Pela conexão com o mangue, surge um dos símbolos do Manguebeat: a antena parabólica enfiada na lama, representando a conexão do avanço tecnológico com a cultura e pobreza do mangue. O segundo símbolo é o característico caranguejo. Animal cujas várias espécies vivem no mangue, representando os trabalhadores e a cultura do local.
Em suma, essa incrível obra que é tão atual nos faz refletir sobre o contexto social e como a arte pode e deve ser utilizada para trazer à tona problemas que precisam ser solucionados. Em outra faixa do disco — A cidade — fica evidente a consciência e a compreensão sobre a função da sociedade, sobre como a estratificação gera desigualdade, e como o acúmulo de riqueza concentrada nas mãos de tão poucos é danoso para praticamente todos. Não é à toa que é considerado como um dos melhores álbuns da história da música brasileira. Esse álbum, que ganhou o coração de diversas pessoas e ganha até hoje, evidencia a criatividade e expõe como o Nordeste é um grande exportador de cultura. Essa alquimia musical é recheada de informações e representatividade. Afinal, modernizar o passado é uma evolução musical. Aproveite!