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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto

CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto Em 24 de março de 2026 por CAMPP Recomenda. Por: Abraão Aguilera Entregue a nós em lindos retalhos, as memórias de um Brasil antigo (e também antiquado) operam sobre nós sentimentos desconhecidos e estridentes. As nuances da repressão do regime militar são enquadradas em “O Agente Secreto” de forma multifacetada: a violência corporativa dos Ghirotti; a repressão policial e seu cínico conluio com a imprensa local que dá vida à perna cabeluda; a negação da própria identidade. Condensadas no olhar distante de Armando Solimões, brilhantemente interpretado por Wagner Moura, tais nuances fazem com que o longa-metragem emane resistência ao apagamento da história, questionada e distorcida em nossos dias.  Pedindo escusas ao distanciamento que textos dessa seção exigem — que não é tamanha, já que foi eu quem a elaborou —, listo alguns de meus encantamentos: o cameo da música de Waldik Soriano, Dona Sebastiana (e aqui não sinto necessidade de justificar o peso dessa personagem e das tantas brasileiras que replica), o cinema São Luiz e, por questões similares às que me permitem escrever esse texto, a profissão de Armando. Com os justos pesos que cada período (ou regime) merece, ser cientista é ainda hoje desafiador. Entendi, ainda na sala de cinema, que havia uma mensagem implícita naquele enredo: o buraco é mais embaixo nas carreiras que remam contra a maré. Escrevendo esse texto na iminência do Oscars 2026 — o que tira, em partes, a suspeição de que sou um mero adulador —, sinto-me parte de um movimento de reconhecimento daquilo que é nosso, brasileiro: notado felizmente lá fora, e, mais felizmente ainda, aqui dentro. O sucesso de bilheteria, as premiações, os cortes das entrevistas do elenco nas redes sociais, as matérias caça-cliques sobre o filme, enfim, chega de listas! Me desculpem pela empolgação! Assista: sinta a tristeza brasileira, a felicidade brasileira, sinta-se um brasileiro por inteiro, pois é ano de copa!

DESENVOLVIMENTO É SOBERANIA?

O texto discute como a ideia de “desenvolvimento” no Brasil, especialmente na Amazônia, muitas vezes reproduz práticas coloniais. A partir da análise de políticas públicas, conflitos por terra e legislações recentes, o estudo mostra que projetos de desenvolvimento — inclusive os chamados sustentáveis — têm contribuído para a concentração de terras, a expansão do agronegócio e a retirada de territórios e modos de vida de povos racializados. O trabalho argumenta que, sem enfrentar problemas estruturais como a desigualdade fundiária, o racismo ambiental e a lógica econômica dominante, o desenvolvimento sustentável pode acabar sendo apenas uma nova forma de manter antigas práticas coloniais. Como alternativa, aponta a necessidade de um processo de descolonização que inclua a restituição das terras nativas e o reconhecimento do valor do trabalho historicamente explorado.

Tio Sam e as respostas do Brasil Pandeiro: uma retrospectiva

Entre o pandeiro e a diplomacia, o Brasil já não dança no mesmo compasso: a harmonia celebrada em Brasil Pandeiro deu lugar à instabilidade nas relações com os Estados Unidos diante dos avanços belicosos do presidente norte-americano.

Violência de gênero na caserna: o paradoxo de proteger enquanto se vive a própria violência.

A Polícia Militar de São Paulo manifesta um paradoxo institucional: ao mesmo tempo em que implementa políticas externas de acolhimento à mulher, preserva uma cultura organizacional que dificulta a proteção de suas próprias integrantes. Essas dinâmicas influenciam diretamente na segregação funcional e o silenciamento de violências contra as policiais dentro dos quartéis.

A Virada do gov.br: como o Instagram do governo mudou o jogo nos últimos 6 meses

A virada do gov.br: como o Instagram do governo mudou o jogo nos últimos 6 meses Fonte: GovBr Por: Giulia Ribeiro, Gabriel Boscardim de Moraes O governo brasileiro adotou uma nova estratégia comunicacional nas redes digitais que tem trazido mais resultados. Entenda o que mudou. Historicamente, a esquerda brasileira sempre carregou uma desvantagem estratégica no ambiente digital. Enquanto isso, a direita consolidou uma presença estruturada nas redes, baseada em comunidades orgânicas e na produção de conteúdo viral emocionalmente orientado, com alta capacidade de mobilização (ITUASSU et al., 2024). Em contraste, os populismo de esquerda no Brasil e na Espanha, tende a operar com modelos comunicacionais mais horizontais, comunitários e menos voltados à lógica da viralização, o que gerou desvantagem competitiva em plataformas como Instagram e Facebook (Rico, Sá e Dourado, 2020). Essa assimetria tornou-se evidente a partir de 2013 e se consolidou durante o bolsonarismo, período em que as redes sociais se transformaram no principal palco de mobilização política da direita. No campo institucional, análises jornalísticas reforçam essa percepção. Como aponta o Metrópoles (2025), apesar do grande número de canais digitais, a comunicação do governo federal ainda não alcançava parcela significativa da população que dependia de informações oficiais. Tal diagnóstico reforçava a necessidade de avaliar as mudanças recentes na estratégia comunicacional do gov.br. A mudança observada nos últimos meses, no entanto, envolve não apenas elementos estilísticos, mas também estruturais. Entre maio e novembro, o gov.br intensificou investimentos em tráfego pago, ampliou o volume de publicações e ajustou sua comunicação a temas de alta circulação pública, como a nova faixa de isenção do IRPF, debates sobre políticas econômicas e repercussões internacionais decorrentes de declarações de Donald Trump. O resultado foi um crescimento expressivo de alcance, engajamento e visibilidade, sugerindo um reposicionamento discursivo relevante na disputa por narrativas no ambiente digital. Passando aos dados quantitativos, o crescimento do perfil do gov.br no Instagram é particularmente significativo. No período entre 1º de maio e 1º de novembro, o perfil conquistou mais de 1,19 milhão de seguidores, publicou mais de 806 posts, acumulou 20 milhões de curtidas, ultrapassou 1 milhão de comentários e registrou uma média de 2,529 milhões de visualizações por Reel. Esses números apontam para uma estratégia de comunicação intensiva e orientada a desempenho. Além disso, dados da Biblioteca de Anúncios da Meta revelam uma ampliação expressiva no investimento em mídia paga. Enquanto em 2024 foram gastos aproximadamente R$ 4 milhões, em 2025 os valores alcançaram R$ 31 milhões. Esse aumento de 675% reforça a hipótese de que a mudança comunicacional não é apenas estética, mas estrutural, indicando a adoção de práticas profissionais e competitivas no ecossistema das redes sociais. As 5 maiores publicações por engajamento do período de maio a novembro de 2025 A análise das cinco publicações de maior desempenho no período revela padrões claros na estratégia comunicacional do gov.br. O post 1 alcançou 475,8 mil curtidas, 15,3 mil comentários, utilizando a representação de cachorrinhos para explicar conceitos de justiça social. A escolha por animais fofos, um  formato eficaz para retenção de atenção, contribuiu para maximizar o impacto de um tema que, em condições normais, apresenta menor propensão à viralização. O post 2  obteve 414,1 mil curtidas, 26,3 mil comentários, posicionando-se como o conteúdo com maior volume conversacional entre os cinco e também o único a ser estático.  Seu foco em soberania nacional, em meio às tensões políticas produzidas por declarações de Donald Trump, indica que temas geopolíticos, quando associados a linguagem acessível, tendem a estimular participação emocional e debate público. O post 3 registrou 428 mil curtidas, 14 mil comentários, novamente utilizando animais como recurso narrativo para traduzir questões complexas relacionadas à soberania. Esse formato evidencia a capacidade dos conteúdos lúdicos de funcionarem como ponte entre políticas públicas e o repertório cotidiano dos usuários. No post 4, com 477 mil curtidas, 10,7 mil comentários, o tema central foi o incômodo gerado pelo PIX no presidente Donald Trump, articulado por meio de linguagem informal e humor leve. O conteúdo demonstra que temas ligados à economia cotidiana continuam funcionando como motores de engajamento. Por fim, o post 5 apresentou o maior número bruto de curtidas 522 mil além de 13,54 mil comentários. O vídeo utiliza gatinhos para explicar propostas de alteração no Imposto de Renda, reafirmando a eficácia de elementos de “fofura” como dispositivos de simplificação cognitiva e ampliação de alcance. Logo, dos cinco posts de maior engajamento, três recorrem a animais fofos como estratégia central para abordar temas da política nacional. Nos outros dois, predominam memes e uma linguagem descontraída, capazes de traduzir questões complexas em mensagens simples e acessíveis. Esse conjunto de práticas revela que o perfil institucional do Governo Federal tem ajustado sua comunicação ao estilo das redes sociais, que opera segundo a lógica da economia da atenção (BENTES, 2021) – na qual a viralização depende de conteúdos que capturem o interesse do público já no primeiro contato, em uma competição de diferentes estímulos perante a escassez de atenção. A transformação do gov.br no Instagram entre maio e novembro de 2025 evidencia uma virada significativa na comunicação institucional brasileira. Há indícios claros de profissionalização, maior investimento, adoção de linguagem popular e alinhamento às exigências algorítmicas das plataformas. Do ponto de vista teórico, essa mudança dialoga diretamente com a literatura que discute a histórica assimetria digital entre direita e esquerda. Estudos apontam que a direita consolidou, ao longo da última década, uma vantagem competitiva baseada em estratégias altamente performáticas de comunicação, enquanto a esquerda enfrentou dificuldades estruturais em ambientes comunicativos de alta intensidade. Os resultados apresentados ao longo do trabalho sugerem que o gov.br começa a reduzir essa distância, incorporando elementos centrais da lógica das redes contemporâneas. Assim, a virada observada não representa apenas uma mudança estética ou pontual, mas a incorporação efetiva de competências comunicacionais decisivas em um ecossistema político cada vez mais mediado por plataformas digitais, métricas de desempenho e disputa contínua por atenção. A experiência recente do gov.br indica um reposicionamento institucional estratégico, com potencial para redefinir a presença do Estado na esfera pública digital

Violência no ambiente escolar brasileiro na região do ABC

Violência no ambiente escolar brasileiro na região do ABC Fonte: Fundação ABRINQ Por: Rebeka Pinaffo do Santo, Isabelle Bocatto, Manuel Mfinda Pedro Marques, e Guilherme Cunha Paschoal 1. Introdução, Tese e Contexto Histórico-Social A violência escolar é um tema amplamente debatido e que, nos últimos anos, vem ganhando destaque no campo acadêmico, tanto no Brasil quanto no exterior. A violência escolar é um fenômeno que tem sua origem em diversos fatores que perpassam o processo educativo e o ambiente escolar. Contudo, deve ser estudada e compreendida a partir da função social da escola enquanto formadora de cidadãos e também responsável pela preparação para a vida em sociedade. Assim, entende-se a violência escolar como um fenômeno social que afeta o contexto educacional e causa múltiplos problemas no processo de ensino e aprendizagem (Nascimento, 2019). De acordo com Santos (2001), a violência possui múltiplas interpretações, podendo ser percebida como brigas que envolvem jovens, adolescentes e estudantes, muitas vezes resultando em vítimas. Compreende-se, portanto, a violência escolar como um fenômeno complexo, que se manifesta nas relações sociais estabelecidas no ambiente educacional. A perspectiva de pesquisadores como Debarbieux, Blaya (2002) e Charlot (2002) é crucial para uma compreensão mais ampla do fenômeno. A perspectiva de pesquisadores como Debarbieux, Blaya (2002) e Charlot (2002) é crucial para uma compreensão mais ampla do fenômeno. Esses autores destacam que a violência na escola pode ser analisada sob três dimensões: a violência na escola, a violência à escola e a violência da escola. A primeira é entendida como agressões físicas, simbólicas ou institucionais, além da destruição do patrimônio escolar. Já a violência na escola refere-se aos conflitos que ocorrem no ambiente escolar entre alunos e professores, afetando o cumprimento dos regimentos e das normas de conduta adotadas pelas instituições, o que acaba comprometendo a vida escolar dos estudantes. A última diz respeito às práticas institucionais e pedagógicas que podem, de forma indireta, gerar exclusão, discriminação ou desigualdade entre os alunos. Diante disso, este artigo busca compreender a problemática da violência escolar no Grande ABC, analisando seus diagnósticos, determinantes e possibilidades de construção de uma agenda prática de políticas públicas. A análise fundamenta-se nas concepções de Charlot (2002), Oliveira e Xavier (2019), Sposito (1998) e Silva (2013). Com o intuito de examinar a violência escolar como uma problemática social a partir de dados obtidos em fontes secundárias e por meio de pesquisa bibliográfica que abordam a temática, pretendemos contribuir na compreensão deste fenômeno complexo na região, além de pensar propostas que fundamentam soluções para a gestão pública. Assim, sustentamos que a violência escolar no Grande ABC decorre de fatores escolares e territoriais combinados e defendemos uma resposta intermunicipal que una protocolos de prevenção, mediação de conflitos e monitoramento contínuo, com foco na preservação do tempo pedagógico e na redução de ocorrências em curto prazo. Mais do que uma questão de eficiência administrativa, trata-se de um desafio de eficácia social: compreender a educação como instrumento capaz de alcançar objetivos coletivos, reduzir desigualdades e promover integração comunitária. A região do ABC formou-se em ciclos de urbanização e industrialização que deixaram marcas persistentes sobre desigualdades e oportunidades educacionais, como discutem Sposito (1998) e Kowarick (2009). Desde sua origem colonial como rota estratégica entre o porto de Santos e o planalto de São Paulo, até sua consolidação como polo industrial no século XX — epicentro das lutas sindicais e da redemocratização — o território construiu-se como espaço de contrastes, diversidade e mobilidade social. Com a Terceira Revolução Industrial, a automação e a digitalização reduziram a necessidade de mão de obra fabril, esvaziando o papel da escola como via direta de inserção profissional. A educação, antes associada à lógica fordista de produção e estabilidade, passou a enfrentar o desafio de formar sujeitos críticos e adaptáveis em um cenário de transformações tecnológicas e insegurança econômica. Nesse contexto, a expansão das expectativas sobre o papel da escola ocorreu sem que houvesse equalização nas condições de ensino e de vida das famílias, produzindo tensões que atravessam toda a rede de ensino. A escola deveria operar como vetor de mobilidade e integração comunitária. Quando recursos, gestão e apoio intersetorial não acompanham as demandas, emergem conflitos. Estudantes enfrentam barreiras socioeconômicas e nós, docentes e gestores, operamos sob pressão e com suporte limitado. A violência no espaço escolar resulta dessa combinação e exige resposta integrada. 2. Conceituação, Tipologias e Marcos Regulatórios Para avançar na compreensão do fenômeno, adotamos a definição de Cunha e coautores (2024), segundo a qual “violência escolar compreende os processos e manifestações de dentro do ambiente escolar ou relacionados a ele, que prejudicam a vida de estudantes, professores, famílias e comunidades, ocorrendo nas escolas, nos caminhos para a escola ou em atividades organizadas pelas instituições de ensino” (p. 18). Trata-se, portanto, de um fenômeno relacional e territorial que ultrapassa os muros da escola e conecta-se às condições de convivência e segurança da comunidade. Definição e Tipologia: Adotamos violência escolar como ocorrências que envolvem estudantes, profissionais e famílias no interior da escola, no trajeto e em atividades promovidas pela escola, inclusive no ambiente digital, conforme CUNHA e coautores. Trabalhamos com quatro tipologias úteis para política pública: Interpessoal, que inclui agressões físicas e verbais, bullying e cyberbullying; Institucional, que reúne práticas e omissões que reproduzem desigualdades; Externa, que abarca ocorrências no entorno e no trajeto; e Extrema, que envolve ataques letais premeditados. Cada tipologia demanda instrumentos específicos de prevenção e resposta. Essa diversidade de tipologias evidencia que não existe solução única para o problema. Enquanto as violências interpessoais requerem mediação de conflitos e fortalecimento de vínculos pedagógicos entre alunos e alunos com professores, a violência institucional exige revisão de práticas escolares e valorização da diversidade. Já a violência externa e a intraescolar demandam ações intersetoriais, articulando segurança pública, assistência social e políticas urbanas para garantir trajetos e ambientes mais seguros. Tais mecanismos de enfrentamento estão expostos e são amplamente discutidos em estudos e relatórios nacionais, incluindo pesquisas apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que enfatizam a necessidade de abordagens diferenciadas para

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e a estratégia de Trump

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e a estratégia de Trump Foto: fotospublicas.com Por: Bruna Drudi Lacerda No dia 29 de setembro de 2025, a Casa Branca publicou um plano proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para interromper a guerra em Gaza . Composto por 20 pontos, o plano sugere um cessar-fogo como acordo de paz entre Israel e o grupo Hamas. Contudo, o que parece ser uma manifestação de preocupação por parte do governo americano, pode não passar de estratégia de marketing político do presidente.  O conflito entre Palestina e Israel é uma disputa político-religiosa que vem sendo travada desde o século XIX, com diversas tentativas de acordos de conciliação entre os representantes das respectivas nações. Essa guerra ganhou maior destaque da mídia após o ataque do Hamas a Israel, gerando cerca de 1.200 vítimas israelenses, o que foi prontamente respondido pelas Forças de Defesa Israelenses, dando continuidade a uma série de ataques contra a população palestina, principalmente na cidade de Gaza. Estima-se que mais de 67 mil palestinos foram mortos com o desenrolar do conflito (Agência Brasil, 2025). Governos do mundo todo se solidarizaram com a situação em Gaza, apoiando um cessar-fogo definitivo e pedindo uma resolução concreta para a situação. O governo americano, principal aliado de Israel, representado pelo presidente Donald Trump, tomou as rédeas da negociação e propôs, em setembro de 2025, um plano composto por 20 pontos que tanto Israel quanto o Hamas deveriam cumprir para que houvesse um acordo de paz.  O acordo foi assinado por Trump, sem a presença de representantes do Hamas e de Israel, em cúpula realizada no Egito, juntamente com representantes do Catar e da Turquia. A iniciativa do governo americano foi amplamente divulgada e discutida em todos os veículos de informação e plataformas digitais, dando a entender que a ação de Trump em pressionar seu aliado para aceitar o acordo seja memorável e digna de um Nobel da Paz. Contudo, Trump viabilizou estrategicamente um acordo que já vem sendo proposto antes mesmo de ele assumir a presidência, utilizando seu lema de negociador para propagar e reafirmar sua imagem como líder da principal potência mundial.  As ações de Trump perante o conflito em Gaza não possuem nenhum viés de preocupação com as vidas sendo perdidas, muito menos de concretizar um possível acordo de paz. Conforme relatado pelo professor do departamento de política da PUC-SP, Reginaldo Nasser, a ideia de cessar-fogo proposta por Trump difere-se, e muito, de um acordo que proponha uma condição de justiça e direitos, e que estabeleça um território e reconhecimento internacional definitivo para o Estado da Palestina, que é a raiz do conflito (UOL, 2025).   O presidente dos Estados Unidos, ao tomar as rédeas dessa conciliação, busca tão somente apoio internacional e reconhecimento de seu soft power por meio de estratégias argumentativas, que são divulgadas facilmente através de postagens nas redes sociais, as quais viralizam e fazem com que ele ganhe apoio ao redor do mundo . Porém, pensar que o acordo proposto é um sinal de que finalmente o conflito entre Israel e Palestina irá ter fim é um grande equívoco. Trump, inclusive, vem  apresentando uma reinterpretação do Oriente Médio, propondo transformar Gaza em uma Riviera. Em vídeo feito com inteligência artificial divulgado por ele mesmo em suas redes, o território é ilustrado como um destino turístico de luxo, sendo retratado com prédios modernos, ilhas artificiais, e com uma estátua do presidente, feita de ouro, em destaque. Com essa ação, Trump propõe reimaginar o território seguindo uma estratégia argumentativa baseada no orientalismo (Said, 1978), ou seja, quando afirma que, com sua interferência, o lugar finalmente seria considerado digno de ser visto, Trump reforça estereótipos criados do oriente como um lugar exótico, atrasado e perigoso, em contraste com a imagem ocidental de progresso.  Dessa forma, embora a iniciativa de Donald Trump tenha sido apresentada como um passo importante para o fim do conflito entre Israel e Palestina, é importante entender que o acordo não será o ponto final, e muito menos que o presidente deve ser reconhecido como o responsável pela paz em Gaza. Deve-se, mais do que nunca, filtrar os discursos desse representante político , entendendo que por trás de grandes atitudes, estão intenções estratégicas que visam empoderar sua imagem como líder.  Bibliografia AFP. Os 20 pontos do plano de Trump para a paz em Gaza. UOL Notícias, 29 set. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/09/29/os-20-pontos-do-plano-de-trump-para-a-paz-em-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025. AGÊNCIA BRASIL. Ataque do Hamas contra Israel completa um ano; Gaza vive pesadelo. Agência Brasil, Brasília, 7 out. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-10/ataque-do-hamas-contra-israel-completa-um-ano-gaza-vive-pesadelo. Acesso em: 05 nov. 2025.  BOWEN, Jeremy. Cessar-fogo em Gaza: ação de Trump foi decisiva para acordo, mas ainda está longe de garantir processo de paz. BBC Brasil, 15 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm2wyw17nl3o. Acesso em: 05 nov. 2025. CNN Brasil. Após ataques de Israel, Trump diz que cessar-fogo em Gaza não corre risco. CNN Brasil, 29 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/apos-ataques-de-israel-trump-diz-que-cessar-fogo-em-gaza-nao-corre-risco/. Acesso em: 05 nov. 2025. CNN Brasil. Plano de paz com 21 pontos anima Trump sobre fim da guerra em Gaza. CNN Brasil, 27 set. 2025, 11:26. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/plano-de-paz-com-21-pontos-anima-trump-sobre-fim-da-guerra-em-gaza/. Acesso em: 05 nov. 2025. COUTINHO, Leonardo. Plano de paz: a solução para Gaza seria virar um resort? Gazeta do Povo, 02 out. 2025, 13:57. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/plano-de-paz-a-solucao-para-gaza-seria-virar-um-resort/. Acesso em: 05 nov. 2025.  FARIA, Adriano. Acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas é assinado por Donald Trump no Egito. Rádio Senado – Conexão Senado, 14 out. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/conexao-senado/2025/10/14/acordo-de-cessar-fogo-entre-israel-e-hamas-e-assinado-por-donald-trump-no-egito. Acesso em: 05 nov. 2025. JARAMILLO, Alejandra. Casa Branca divulga “Acordo de Paz Trump” assinado em cúpula no Egito. CNN Brasil, 13 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/casa-branca-divulga-acordo-de-paz-trump-assinado-em-cupula-no-egito/. Acesso em: 05 nov. 2025. MOITA, Sandro Teixeira. O acordo de paz entre Israel e o Hamas. Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), 22 out. 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/conflitos-belicos-e-terrorismo/conflito-israel-x-hamas/801-o-acordo-de-paz-entre-israel-e-o-hamas. Acesso em: 05 nov. 2025. NASSER, Reginaldo. Cessar-fogo não é paz, diz Reginaldo Nasser sobre Gaza. UOL Notícias, 10 out. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/10/cessar-fogo-nao-e-paz-diz-reginaldo-nasser-sobre-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025. TOKARNIA, Mariana. Guerra na Faixa

Impacto das redes sociais nas Políticas Públicas: estudo de caso Felca

Impacto das redes sociais nas Políticas Públicas: estudo de caso Felca foto: revistaquem.globo.com Por: Isabella Werneck Zanon  e Paulo Vitor Nascimento dos Santos Entenda como o vídeo do Youtuber Felipe Bressanim repercutiu no debate público online e como a partir disso surgiu uma lei. A manhã do dia 06 de agosto de 2025 começou incômoda. Foi neste dia que nas redes sociais não se falava em outra coisa: Adultização. Palavra que ganhou a boca e as redes do povo brasileiro devido a um vídeo homônimo publicado por Felipe “Felca” Bressanim Pereira, youtuber brasileiro que em cerca de 50 minutos de vídeo destrincha o cenário de vulnerabilidade que se encontram menores de idade nas redes sociais.  Em formato informativo e em objetivo de denúncia, o criador de conteúdo para internet inicia seu vídeo com exemplos leves de adultização e no decorrer evidencia de forma simulada como agem os predadores sexuais infantis e seus códigos para compra e venda de material pornográfico ilícito. Ainda, o autor do vídeo traz como base uma especialista em infância, adolescência e parentalidade, Andressa Chamat, para explicar à população os impactos da exposição precoce e não supervisionada à internet, como o prejudicamento do discernimento entre público e privado ao longo do seu desenvolvimento desencadeando dezenas de problemas na formação do indivíduo (Felca, 2025).  O tema de adultização, logo, abuso infantil, acendeu um alerta na populção e ganhou ainda mais projeção quando Felca surgiu na maior emissora de TV do país, no principal veículo de imprensa dominical, “Fantástico”, na mesma semana de publicação do vídeo. Até o momento da publicação deste texto, o vídeo conta com pouco mais de 50 milhões de visualizações e fura a bolha de público, atingindo todas as faixas etárias e diferentes espectros políticos. O Relatório nº 103 do Monitor do Debate Público (MDP/LEMEP), que analisou a percepção da sociedade sobre o vídeo “Adultização” de Felca, revelou um consenso entre os diferentes grupos políticos monitorados em relação à atribuição de responsabilidade pela exploração e adultização infantil nas redes sociais. A opinião pública tendeu a identificar os pais e responsáveis como os principais culpados pelo fenômeno, sendo vistos como negligentes ou, em alguns casos, coniventes com a exposição dos filhos. Essa visão foi dominante em todos os segmentos analisados, incluindo Bolsonaristas Convictos, Bolsonaristas Moderados, Eleitores Flutuantes, Lulodescontentes, Lulistas e o grupo virtual de evangélicos (LEMEP, 2025). Embora a responsabilidade inicial pelo caso recaísse sobre os pais, grupos como os Lulodescontentes e os Lulistas ampliaram o debate ao defender que a proteção infantil exige uma ação compartilhada entre famílias, plataformas digitais e governo, especialmente por meio de fiscalização e de leis mais rígidas. Paralelamente, o relatório identificou uma mobilização rápida de figuras da direita e da extrema-direita que buscaram politizar a denúncia de Felca, interpretando-a como uma estratégia da esquerda para justificar a regulamentação das redes sociais, vista por esses setores como ameaça à liberdade de expressão. Nesse movimento, essa vertente passou a acusar o governo e a esquerda de hipocrisia, defendendo que a proteção infantil é responsabilidade exclusiva da família e não deve envolver controle estatal (LEMEP, 2025). A denúncia de Felca é a prova viva de como a internet, que muitas vezes é vista como um espaço superficial, pode ser o epicentro de mudanças sociais e políticas reais, e tudo começou com um vídeo, que decidiu usar o canal do Youtube não para uma trend boba, mas para expor um problema seríssimo que estava acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, a chamada “adultização” de crianças em plataformas como o TikTok. O vídeo dele foi uma explosão, e não foi só sobre apontar o dedo, foi sobre questionar o sistema de funcionamento das plataformas, sobre como os algoritmos e a busca incessante por engajamento estavam incentivando a exposição de menores em situações e com roupas sugestivas, simulando comportamentos de adultos de uma forma claramente sexualizada, e essa crítica ultrapassou  as barreiras da internet e se tornando, quase que da noite para o dia, a principal pauta de discussão pública no país. E o mais incrível é que essa discussão não ficou só nos trending topics, ela se converteu em ação cívica quase imediatamente, num fenômeno que a imprensa rapidamente apelidou de “Efeito Felca”, porque o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou um aumento surreal, de mais de 500%, no número de denúncias de exploração sexual infantil online recebidas pelo Disque 100 (APÓS FELCA…, 2025), provando que a sociedade estava assistindo e, mais importante, estava indignada o suficiente para agir. Essa indignação coletiva precisava de um foco, e ela rapidamente se direcionou para casos que já estavam no radar, mas que ganharam uma visibilidade imensa, como o do influenciador Hytalo Santos, que já era investigado pelo Ministério Público da Paraíba desde 2024 por suspeitas de explorar menores em seus conteúdos (ENTENDA O CASO…, 2025), mas foi a pressão gerada pelo debate nacional que transformou essa investigação em um caso emblemático da urgência do problema. A consequência dessa pressão foi drástica e culminou na prisão de Hytalo Santos e de seu marido em São Paulo em agosto de 2025, uma operação complexa que apurava crimes gravíssimos, incluindo tráfico humano e exploração sexual infantil (HYTALO SANTOS…, 2025), e essa ação do Judiciário foi um sinal claro de que a impunidade percebida nas redes sociais estava com os dias contados, mostrando que o debate online teve um peso real na aceleração de processos judiciais. Enquanto o Judiciário avançava, o Poder Legislativo em Brasília, frequentemente distante do ritmo da internet, foi pressionado a agir rapidamente, levando o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, a prometer prioridade máxima para projetos relacionados ao tema (YOUTUBER VIRALIZA…, 2025). A pressão social resultou em uma onda de propostas legislativas, muitas apelidadas informalmente de “Lei Felca” no Congresso (DA INTERNET…, 2025), e até projetos que estavam parados, como o PL 785/25, que previa autorização judicial para que crianças atuassem como influenciadoras digitais, voltaram ao centro do debate (PROJETO TORNA…, 2025). Essa mobilização culminou na sanção da Lei nº 15.211, em 17

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo Foto: Martha Muir em Middletown, Ohio. A materialidade da inteligência artificial expõe uma contradição crítica. Enquanto discursos tratam a “inteligência” como uma abstração, sua operacionalização depende de insumos físicos – dados, capacidade de processamento e infraestruturas energéticas – que reordenam relações ambientais e políticas. Para compreender essas tensões é preciso articular um olhar histórico, técnico e geopolítico, mostrando como decisões epistemológicas antigas repercutem hoje na configuração de políticas públicas de energia, uso de recursos ambientais e soberania nacional. Por: Gabriel Boscardim de Moraes, Thaís de Oliveira Monteiro, Henrique Cochi Bezerra, João Pedro Frealdo de Oliveira    Quando os estudos iniciais sobre inteligência artificial começaram a se consolidar, duas vertentes principais de pesquisa se destacavam. De um lado, estavam os proponentes da inteligência artificial simbólica – um grupo de pesquisadores que acreditava que a melhor forma de ensinar máquinas a “pensar” era por meio da lógica e da manipulação de símbolos. De outro, encontravam-se os defensores da cibernética – uma perspectiva voltada à criação de sistemas adaptativos, capazes de se auto-organizar com base na experiência. Foram os pesquisadores vinculados à vertente lógica que cunharam o termo “Inteligência Artificial”, durante o Workshop de Dartmouth, realizado em 1956, nos Estados Unidos. Na ocasião, os organizadores optaram por essa denominação justamente para distinguir-se da tradição cibernética e, em especial, evitar a participação de figuras como Norbert Wiener – matemático de grande influência, mas considerado politicamente incômodo por suas posições progressistas, críticas ao financiamento militar da pesquisa científica e defensor de uma ciência socialmente responsável. Por ironia, hoje a vertente simbólica ocupa um papel secundário no campo da IA. A hegemonia atual concentra-se no paradigma conexionista, que ganhou forma em 1958 com a criação do Perceptron, a primeira rede neural artificial. O conexionismo compartilha princípios com a cibernética, pois busca desenvolver sistemas capazes de aprender de maneira autônoma a partir de grandes volumes de dados. Assim, ao contrário da IA simbólica — que entende a mente como um sistema baseado em símbolos e regras explícitas —, o conexionismo propõe que o conhecimento e o raciocínio emergem do reconhecimento de padrões distribuídos em redes neurais artificiais, seguindo uma lógica indutiva. Dessa forma, o sentido contemporâneo do termo “inteligência artificial” acabou se aproximando justamente daquilo que os fundadores do Workshop de Dartmouth pretendiam diferenciar (Pasquinelli, 2023). Um elemento central para o treinamento das redes neurais conexionistas são os dados. Os dados são o principal insumo da inteligência artificial hegemônica, pois eles são necessários para a extração de padrões e ajuste de parâmetros que formarão os modelos.  Igualmente, o poder computacional é fundamental para a IA. Segundo um relatório dos pesquisadores de Stanford, “O processamento de treinamento para modelos de IA notáveis dobra aproximadamente a cada cinco meses, o tamanho dos conjuntos de dados para treinamento de LLMs a cada oito meses e a potência necessária para treinamento anualmente” (THE 2024 AI INDEX REPORT). Dessa forma, o paradigma conexionista converte dados e poder computacional em insumos econômicos e epistemológicos. Estudos e relatórios recentes mostram que o treinamento computacional de modelos complexos e o aprendizado profundo crescem em ritmo acelerado, empurrando para cima tanto a necessidade de hardware especializado quanto a escala da infraestrutura exigida.  A consequência imediata é a transferência da discussão para os data centers: instalações físicas compostas por milhares de servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e infraestruturas elétricas e de refrigeração pensadas para funcionamento ininterrupto. Como um dos pilares do mundo conectado, os data centers viabilizam de serviços de comunicação e financeiros a aplicações de IA generativa, o que explica sua expansão em patamares cada vez maiores. Em 2024, estimava-se a existência de mais de 11 mil unidades operacionais no globo, com forte concentração nos Estados Unidos – aproximadamente 45% do total -, seguidos por núcleos relevantes na Europa – notadamente, Alemanha, Reino Unido, França e Holanda -, China e Austrália (Statista, 2025).  Na América Latina, o Brasil vem se destacando. No ranking mundial, figura a 10ª posição em quantidade desses espaços (Statista, 2025). Levantamento realizado pelo Data Center Map aponta 195 centros atualmente em operação no país, com concentração no eixo Sudeste-Sul – São Paulo consolidado como epicentro nacional – e ampliação estratégica de polos no Nordeste e no Sul, influenciado por fatores como a proximidade de cabos submarinos, oferta de terrenos industriais a custos menores e políticas governamentais locais permissivas. O mercado global de data centers foi estimado em US$ 386,71 bilhões (2025) e prevê alcançar US$ 627,40 bilhões (2030), enquanto a potência instalada de TI sobe de 120,07 GW (2025) para 201,89 GW (2030). No Brasil, o setor totaliza cerca de 0,95 GW (2025) e projeta 1,46 GW (2030), com receitas que devem evoluir de US$ 2,95 bilhões (2025) para US$ 5,89 bilhões (2030) (Mordor Intelligence, 2025). Para dimensionar essas grandezas, observa-se que a potência de carga global estimada para 2025 (120,07 GW) equivale a 57% da capacidade instalada da matriz energética nacional no mesmo ano, segundo informe da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A simples comparação permite vislumbrar a pressão que a crescente demanda por processamento computacional pode exercer sobre os sistemas elétricos, especialmente em redes de energia de escala continental, como a brasileira. Embora compartilhem semelhanças com data centers “convencionais”, as instalações destinadas a aplicações de IA impõem requisitos mais rigorosos, como recursos de computação de altíssimo desempenho, arquiteturas de armazenamento mais rápidas, redes de baixa latência, sistemas de refrigeração especializados e, sobretudo, fontes de energia robustas e resilientes (Jonker e Gomstyn; IBM, 2025). Tais especificações elevam drasticamente o consumo de eletricidade e, em muitos casos, também o uso de água potável – podendo atingir volumes diários equivalentes ao abastecimento de cidades de 10 mil a 50 mil habitantes –, além de gerar emissões significativas de carbono (EESI, 2025). Esses fatores são centrais nos impactos socioambientais associados à expansão dessas instalações. Outro fator relevante nesse cenário é a necessidade urgente de aumentar a eficiência energética dessas instalações, com o objetivo de reduzir custos sempre que possível nos processos

A estética da submissão: tradwives e a performance da feminilidade conservadora

A estética da submissão: tradwives e a performance da feminilidade conservadora  Fonte: Estevão, 2025. O movimento das tradwives tem ganhado visibilidade nas redes sociais ao dialogar com projetos conservadores que reforçam papéis de gênero rígidos. Mais do que uma escolha pessoal, esse fenômeno simboliza a naturalização de desigualdades históricas ao exaltar a dependência e submissão feminina como ideais a serem seguidos. Em vista disso, é preciso compreender como modismos conservadores moldam percepções sociais e influenciam a vida das mulheres. O movimento das tradwives (traditional wives, ou mulheres tradicionais) tem ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, onde influenciadoras compartilham rotinas centradas na dedicação ao marido, à maternidade e ao lar. Mais do que uma escolha de estilo de vida, o fenômeno resgata um passado marcado pela rígida divisão de papéis de gênero e pela valorização da família nuclear como modelo único. A performance, construída por meio de discursos, conselhos de “feminilidade” e uma estética que associa obediência à elegância, traduz uma dinâmica cultural que se conecta diretamente ao avanço do conservadorismo contemporâneo. A ascensão desse fenômeno não se explica apenas pelo apelo “nostálgico”, mas pelo diálogo direto com projetos políticos ultraconservadores em diversas partes do mundo. Partidos e lideranças da extrema direita têm investido na retórica da “restauração da ordem” e na defesa dos “valores tradicionais”, apresentando-se como barreiras às políticas de equidade de gênero e à autonomia reprodutiva. Nesse contexto, as tradwives operam como peças de legitimação simbólica: suavizam os mecanismos de ação do conservadorismo ao transformá-los em um ideal de vida doméstico, feminino e aparentemente inofensivo. É nesse contexto que a imagem de Ivanka Trump, durante a posse de Donald Trump em 20 de janeiro de 2025, ganhou enorme repercussão. Vestida com um conjunto monocromático verde e apresentando-se de forma sóbria, Ivanka evocou comparações imediatas com a estética de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), obra distópica de Margaret Atwood que retrata um regime teocrático e totalitário nos Estados Unidos. A semelhança com as Esposas – mulheres casadas com os Comandantes, que sustentam e legitimam o sistema de exploração das Aias – foi vista como um gesto carregado de simbolismo político. Como destacou Bleiker (2018), as imagens visuais são performances que circulam politicamente e, por isso, tornam-se importantes instrumentos na “guerra das imagens”, sendo capazes de moldar opiniões, percepções e influenciar debates. Assim, a fotografia de Ivanka não pode ser compreendida como uma escolha casual, mas como parte de uma performance que traduz a estética da feminilidade conservadora. Sua presença encarna o mesmo espírito que sustenta o movimento das tradwives: a legitimação de papéis de gênero rígidos, ocultada pelo discurso da elegância e disciplina. Ao mesmo tempo em que desperta admiração em setores conservadores, essa estética também funciona como instrumento de naturalização de retrocessos em relação aos direitos das mulheres. O atual avanço do movimento dialoga diretamente com o momento pelo qual países do mundo vivem, em especial o Brasil, com o avanço de diversas pautas conservadoras, e por vezes retrógradas, que parecem querer suprimir direitos conquistados por minorias durante décadas de luta (Fukushima; Ferraz, 2021; Nunes, 2025).   Um dos argumentos para o avanço desse fenômeno é a percepção de que essas mulheres escolheram a família ao invés do feminismo. No entanto, essa ideia não encontra respaldo na realidade, tendo em vista que, como  prega Beauvoir (2020), o feminismo busca libertar a mulher das condições sociais e simbólicas que a colocam em posição de subordinação e subalternização. Assim, o feminismo não impõe um modelo único de vida, mas defende a autonomia da mulher para decidir o que deseja para si, seja construir uma carreira, dedicar-se à família ou conciliar ambas as escolhas, até porque, trabalho doméstico também é  uma forma legítima de trabalho (Federici, 2019).  Ademais, outro ponto relevante é que, no cenário econômico-social atual, optar por não trabalhar fora é uma realidade acessível a poucas mulheres, devido principalmente às limitações financeiras. Segundo dados do IBGE, a renda média mensal da população brasileira é de R$ 3.057,00 (três mil e cinquenta e sete reais), sendo que as mulheres ganham, em média, 20,9% a menos que os homens. Entre as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais acentuada: elas recebem menos do que os homens, independentemente da raça ou etnia, e também menos que as mulheres brancas, com uma diferença que pode chegar a 110%.   O Brasil possui uma população majoritariamente feminina, na qual a maioria das mulheres é negra e está – historicamente – alocada em sub-empregos, trabalhos informais ou trabalhos formais de baixa remuneração (Gonzalez, 1984); logo, não trabalhar fora, para parte significativa desse grupo, nunca foi uma opção. Dizer, mesmo que indiretamente, que essas mulheres se dedicam menos à família, por não terem a possibilidade de se concentrar exclusivamente nela, revela uma visão limitada da realidade social e histórica, tendo em vista que muitas dessas mulheres são as responsáveis por prover e manter a casa e a família, evidenciando, assim, como o movimento tradwife é nichado e voltado para segmentos específicos de mulheres com condições socioeconômicas privilegiadas.    Outro ponto importante, ao optar por esse estilo de vida, é a questão da dependência financeira que essa escolha pode acarretar. Por reforçar uma ideia patriarcal, de que o homem é o único responsável por prover a casa, o poder e o controle econômico ficam concentrados no marido, o que pode colocar a mulher em posição de submissão por não deter autonomia financeira, já que a subordinação econômica é uma forma estrutural de opressão feminina, limitando liberdade e escolhas de vida (Federici, 2021) Além disso, em um país como o Brasil, em que os casos de feminicídio e violência contra a mulher, infelizmente, aumentam a cada dia, a hipossuficiência financeira só seria um elemento dificultador para que a mulher possa romper com situações de abuso e agressão. Diante disso, é importante refletir sobre como modismos que evocam um modo de vida conservador impactam a sociedade, especialmente em relação ao gênero, política e cultura. Estilos de vida como o das tradwifes são apresentados