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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

BoJack Horseman: o retorno para Hollywood

BoJack Horseman: o retorno para Hollywood Em 09 de julho por CAMPP Recomenda. Por: Antony Silva. Em um mundo onde animais e humanos convivem sem diferenças, a série nos leva a uma Hollywood caótica em que os personagens lidam com problemas existenciais, relacionamentos conturbados e conflitos pessoais. Ao acompanhar a série, nos pegamos assistindo a um cavalo-artista com características humanas e uma personalidade pouco convidativa. Inicialmente, a série nos entrega o personagem principal e detalha traços da sua vida. BoJack é uma celebridade que atuou como personagem principal em uma sitcom chamada Horsin’ Around durante a década de 1990. Hoje, o que lhe resta é viver da nostalgia dos tempos de glória e do dinheiro dessa época. Por mais que ele tenha tido essa ascensão, a queda foi ainda maior. No presente da série, BoJack vive preso ao passado e ao que um dia foi, enquanto revela uma personalidade complexa. Essa profundidade não se limita ao protagonista, já que os coadjuvantes também apresentam grande desenvolvimento. Engana-se quem, à primeira vista, julga a obra por ser uma animação e acredita que ela deveria ser infantil e sem profundidade. A série entrega justamente o oposto dessa premissa. O personagem principal é um indivíduo que, ao primeiro contato, dificilmente desperta simpatia no telespectador. BoJack é um adulto que preenche o vazio da sua existência com prazeres imediatos, álcool e drogas. O protagonista é narcisista, arrogante e antipático. Você me pergunta: por que, então, assistir a um cavalo ranzinza e chato? A resposta é simples: mesmo que a realidade dos personagens seja absurda, como um cavalo astro de Hollywood, uma gata rosa que dá a vida por seu trabalho, ou um labrador amarelo chamado Mr. Peanutbutter, que provavelmente é o indivíduo mais feliz da série, a obra consegue torná-los humanos e fáceis de se identificar. Além disso, explora aspectos da vida desses personagens que fazem com que o telespectador crie um vínculo com cada um. BoJack Horseman é uma série que trabalha muito bem o humor ácido com a relação do indivíduo e sua existência em um mundo sem um sentido pré-definido. No entanto, cada personagem tenta lidar com a vida de formas diferentes. Todd, amigo e companheiro de casa de BoJack, busca preencher o vazio existencial com pequenas metas e experiências. Diane, escritora e amiga do personagem principal, procura um sentido para a vida enquanto lida com suas próprias confusões. Até mesmo o personagem Mr. Peanutbutter apresenta, em certos momentos, seus problemas pessoais. Logo, BoJack transforma seu vazio em autosabotagem, afastando amigos e pessoas com quem convive. Ainda assim, a série consegue trazer de forma sutil uma reflexão sobre a existência do indivíduo no mundo, críticas em relação à sociedade e à indústria do entretenimento, junto a uma Hollywood bem caricata. Entre tudo isso, BoJack Horseman cativa principalmente por combinar tão bem o humor com a profundidade e complexidade dos personagens, gerando uma identificação com o telespectador. Você sente raiva e empatia pelos personagens. Em resumo, criamos uma conexão com todos eles, pois eles sentem algo que nós, humanos, decidimos chamar de emoções.

O policial como burocrata de nível de rua: as sutilezas da operacionalidade, da complexidade e da tomada de decisão no cotidiano das polícias

O policial como burocrata de nível de rua: as sutilezas da operacionalidade, da complexidade e da tomada de decisão no cotidiano das polícias Em 09 de julho de 2026 por GT de Segurança Pública. Foto: Juris PM (2026). Por: Carlos Augusto Pereira de Almeida. O artigo discute o papel do policial como burocrata de nível de rua, destacando como as decisões tomadas no cotidiano da atividade policial vão além da aplicação mecânica da lei. A partir da literatura sobre implementação de políticas públicas, o texto analisa os fatores institucionais, organizacionais e contextuais que influenciam a discricionariedade policial e evidenciam a complexidade da atuação na linha de frente da segurança pública. O ser policial: uma análise a partir do presente Propõe-se iniciar a reflexão sobre as instituições policiais a partir do presente, ou seja, das práticas, atribuições, responsabilidades e desafios que caracterizam o trabalho policial na contemporaneidade. Em vez de adotar uma perspectiva histórica linear, centrada exclusivamente na evolução institucional das polícias ao longo do tempo, busca-se compreender inicialmente aquilo que o policial efetivamente faz em seu cotidiano: quais problemas enfrenta, quais decisões precisa tomar, quais recursos possui à sua disposição e quais limites condicionam sua atuação Essa opção metodológica parte do pressuposto de que a compreensão do fenômeno policial exige observar a prática concreta do policiamento antes mesmo de analisar suas estruturas formais. O trabalho policial manifesta-se em múltiplas interfaces sociais, jurídicas, políticas e morais, que atravessam desde conflitos interpessoais de pequena escala até situações de elevada complexidade envolvendo violência, criminalidade e gestão de crises. Conforme observa Bailey (2001), a atividade policial caracteriza-se menos pela aplicação mecânica da lei e mais pela capacidade de mobilizar recursos coercitivos legitimados socialmente para administrar situações concretas. De forma semelhante, Lipsky (2019) demonstra que os burocratas de nível de rua, entre os quais se inserem os profissionais da segurança pública, exercem considerável discricionariedade na implementação das políticas públicas, sendo suas decisões cotidianas determinantes para a forma como o Estado é efetivamente percebido pela população. Partindo dessa perspectiva, pretende-se compreender o ser policial para além das definições normativas ou idealizadas da profissão, analisando suas práticas concretas, ambiguidades, tensões institucionais e os desafios inerentes à administração cotidiana dos conflitos sociais. Busca-se compreender o policial não apenas como executor de normas legais, mas como um agente que atua em contextos marcados pela incerteza, pela discricionariedade e pela necessidade de tomada de decisões situacionais. Nesse sentido, o referencial teórico dialoga especialmente com as contribuições de Jaqueline Muniz, cujas reflexões sobre a governabilidade da força, a discricionariedade policial e a administração prática dos conflitos permitem compreender as múltiplas dimensões do fazer policial. Em Polícia para quem precisa de polícia (MUNIZ; PAES-MACHADO, 2010) e em Concepções progressistas e engenharia do desgoverno: teses equivocadas sobre segurança pública (MUNIZ, 2026), a autora evidencia as complexidades da atividade policial, demonstrando como o trabalho cotidiano dos agentes é atravessado por dilemas operacionais, limitações institucionais, expectativas sociais e processos decisórios que não podem ser reduzidos à simples aplicação da lei. Tal compreensão afasta-se das leituras que reduzem o policiamento ao combate ao crime e aproxima-se da perspectiva que entende a polícia como uma instituição responsável pela administração situacional de conflitos, pela produção de ordem e pela gestão cotidiana de problemas sociais (BAILEY, 2001; LIPSKY, 1980). O trabalho policial como atividade cognitiva O trabalho policial não é, essencialmente, um trabalho braçal. Trata-se, sobretudo, de uma atividade predominantemente cognitiva. O policial toma decisões difíceis em tempo real, muitas vezes em questão de segundos, diante de situações complexas, imprevisíveis e carregadas de tensão. Cada abordagem, atendimento ou intervenção exige análise, interpretação, julgamento e avaliação constante das circunstâncias envolvidas. Nesse sentido, o policial não “aplica a lei” de forma automática ou mecânica. A lei constitui uma norma abstrata, formulada para regular comportamentos e relações sociais. O trabalho policial consiste justamente em construir caminhos e contornos que permitam sua efetivação no mundo concreto. Trata-se de um processo permanente de adaptação entre a norma e a realidade, entre aquilo que está previsto legalmente e aquilo que se apresenta diante do agente no cotidiano das ruas. Como observa Bailey (2001), o policiamento é marcado pela discricionariedade e pela necessidade de decisões práticas diante de circunstâncias que raramente se encaixam perfeitamente nos manuais, protocolos ou dispositivos legais. A tomada de decisão policial ocorre em meio a diferentes padrões e dimensões de avaliação. Há a dimensão da legalidade, que estabelece os limites normativos da atuação; a legitimidade, relacionada à aceitação social das ações empreendidas; a dimensão técnico-profissional, construída a partir da formação, da experiência e do conhecimento acumulado; a dimensão político-institucional, vinculada às diretrizes organizacionais; e a dimensão moral, que envolve valores individuais e coletivos mobilizados em cada situação concreta. Sob essa perspectiva, o policial pode ser compreendido como um burocrata de nível de rua (LIPSKY, 2019), isto é, um agente estatal que opera diretamente na interface entre o Estado e a população. Suas decisões cotidianas não apenas implementam políticas públicas, mas também contribuem para defini-las na prática. A discricionariedade inerente ao trabalho policial faz com que a interpretação das normas e a avaliação das circunstâncias produzam impactos concretos sobre os cidadãos e sobre a forma como o Estado é percebido pela sociedade. Muitas vezes, a ação policial não é bonita, confortável ou amplamente aplaudida pela opinião pública. Uma imobilização realizada em via pública, por exemplo, dificilmente desperta a mesma admiração que uma luta esportiva televisionada, embora possa ser necessária para preservar vidas ou interromper uma agressão em andamento. Contudo, a análise da atividade policial exige reconhecer que o uso da força e as intervenções estatais não ocorrem em um vazio social, ou em um ambiente totalmente controlável. As decisões policiais são produzidas em contextos marcados por valores, representações sociais e percepções de risco que podem influenciar a construção da suspeição e a seleção dos alvos da ação policial. Nesse sentido, Misse (1995) chama atenção para os processos de construção social do crime e do criminoso, demonstrando como determinadas populações e territórios passam a ser associados, de forma recorrente, à criminalidade. Tais processos

A Guerra da Desinformação: Deepfakes, IA e a Transformação dos Conflitos

A Guerra da Desinformação: Deepfakes, IA e a Transformação dos Conflitos  Em 09 de julho de 2026 por GT de Debate Público Online. Foto: Reuters/Dado Ruvic Por: Isabella Werneck Zanon. Em 2023, estima-se que 500.000 deepfakes foram compartilhados online. Em 2025, esse número chegou a 8 milhões, um aumento de 1.500% em dois anos. (Ceartas) A guerra Irã–EUA–Israel de 2026 representa o momento em que essas trajetórias tecnológicas e geopolíticas convergiram com força máxima. Mas o que tornou esta guerra diferente de todas as anteriores não foi apenas a quantidade de conteúdo falso, e sim a forma estratégica como esse conteúdo foi projetado para fazer e o que ele conseguiu esconder, revelando uma nova camada informacional nas guerras contemporâneas. Em junho de 2025, durante os 12 dias de conflito direto entre Israel e Irã, o Observatório Europeu de Mídia Digital (EDMO) registrou algo inédito na história dos conflitos modernos: pela primeira vez, mais desinformação foi criada por IA generativa do que por métodos tradicionais. Os três vídeos falsos mais vistos da Guerra dos 12 Dias acumularam, coletivamente, mais de 100 milhões de visualizações. Oito meses depois, com ferramentas de IA gerando resultados significativamente mais realistas e acessíveis a um número muito maior de atores, o conflito de fevereiro de 2026 replicou esse modelo em escala muito maior, com inovações táticas importantes. O que, em junho de 2025, foi considerado um surto de desinformação sem precedentes tornou-se, em março de 2026, a nova normalidade da guerra informacional. Em entrevista à Euronews (30/03/2026), o especialista em desinformação, professor Jones destacou que as falhas foram superadas e que esta tecnologia passou a estar acessível a qualquer pessoa com um smartphone. A cobertura midiática ocidental dominante cobriu a guerra de desinformação como um problema principalmente iraniano: Teerã fabrica conteúdo falso, enquanto as democracias verificam. Essa narrativa é uma forma de desinformação por omissão. A análise do ecossistema informacional do conflito revela operações coordenadas e documentadas em múltiplas direções e ao menos uma campanha diretamente ligada a Israel, que utilizou deepfakes durante ataques cinéticos reais, é demonstrada na tabela 1.   ATOR CONTEÚDO PLATAFORMA FONTE Irã/contas pró-Irã Vídeo falso de ataque ao USS Abraham Lincoln; soldados americanos capturados ajoelhados sob bandeiras iranianas; cidades israelenses em chamas; frota naval destruída TikTok, X, Facebook, Instagram: 145 mi+ visualizações em 2 semanas Cyabra (mar 2026); AFP Irã/contas pró-Irã Deepfakes de Netanyahu como robô defeituoso com múltiplos dedos; deepfakes de Bennett; imagens do corpo de Khamenei sob escombros (imediatamente após morte) X, Telegram: espalhados globalmente antes de verificação Foreign Policy (mar 2026) EUA/Casa Branca Contas oficiais postaram vídeos intercalando filmagens de bombardeios reais com cenas de Top Gun, Braveheart e referências ao videogame Wii Sports X, Instagram: postagens de contas oficiais verificadas Reuters Institute for the Study of Journalism (mai 2026) Israel/operação “PRISONBREAK” Rede coordenada com dezenas de contas: imagens e vídeos gerados por IA, imitação de veículos jornalísticos legítimos, deepfakes durante ataques cinéticos reais — com objetivo explícito de incitar a derrubada do governo iraniano Múltiplas plataformas, campanha documentada por pesquisa acadêmica independente Citizen Lab, Universidade de Toronto (2026) Atores difusos (múltiplos) Vídeo de game (Call of Duty et al.) apresentado como batalha real; imagens de explosões na Ucrânia e na China reaproveitadas como ataques em Israel; imagem aérea de cemitério em Zanjan apresentada como vala comum em Minab X, TikTok: viralização antes de remoção AFP Global Fact-Checkers; BBC Verify Irã/contas pró-Irã Rede de bots no Reino Unido que havia espalhado conteúdo pró-independência escocesa e anti-Brexit silenciou por 16 dias após os ataques e retornou com mensagens explicitamente pró-Irã X, UK: operação estatal documentada Cyabra, relatório Cipher Brief (mar 2026) Tabela 1: Elaborada pela autora   O Citizen Lab da Universidade de Toronto documentou a operação “PRISONBREAK” com detalhes que a mídia ocidental praticamente ignorou: uma rede coordenada por Israel, usando IA generativa, que imitava veículos jornalísticos reais e distribuía deepfakes durante janelas de ataques físicos para maximizar o impacto psicológico. O objetivo declarado era fomentar a instabilidade interna no Irã. O fato de que isso foi feito com as mesmas ferramentas que, quando usadas por Teerã, são denunciadas como “propaganda estatal” raramente apareceu na cobertura dos mesmos canais que documentaram as operações iranianas. Além disso, a análise forense da Cyabra sobre as campanhas iranianas revelou uma inovação tática central: a coordenação em escala. Dezenas de milhares de contas inautênticas distribuíram ativos de IA idênticos simultaneamente em todas as principais plataformas, com janelas de postagem sincronizadas e clusters de hashtags coordenados apontando para produção centralizada de conteúdo. Dos perfis envolvidos na amplificação da campanha, 19% foram identificados como inautênticos, mas bastaram para catapultar vídeos fabricados ao topo dos trending topics antes que qualquer mecanismo de verificação pudesse reagir. (Cyabra) Em conflitos de alta velocidade, a informação verificada quase sempre chega atrasada, e é justamente nesse intervalo que a desinformação ocupa espaço. Ela funciona assim por design. O neurocientista da comunicação Alexios Mantzarlis, diretor do Security, Trust, and Safety Initiative da Cornell Tech, descreveu esse problema com precisão clínica ao afirmar que o conteúdo criado por IA se torna mais eficaz e mais enganoso quando aparece misturado a material real, porque as pessoas têm mais dificuldade de analisá-lo no modo rápido, distraído e automático com que normalmente consomem informação online. Mesmo quando o espectador teria capacidade de reconhecer que algo é falso se parasse para observar com atenção, na prática ele continua rolando a página e absorve apenas uma impressão rápida. Existe um fenômeno que pesquisadores chamam de “liar’s dividend”, ou dividendo do mentiroso, no qual, em ambientes saturados por deepfakes, a simples existência da tecnologia de fabricação começa a contaminar a credibilidade de documentos autênticos. Qualquer imagem real pode ser descartada como falsa, assim como qualquer vídeo legítimo pode ser contestado como produto de IA generativa. Quando a desinformação se espalha de forma suficientemente difusa, ela já não precisa convencer ninguém de uma mentira específica. Basta destruir a confiança no que é verdadeiro. Essa dinâmica apareceu de forma concreta durante o conflito de 2026 por meio de

Movimento antivacina no Brasil contemporâneo: política, desinformação e desafios à saúde pública

Movimento antivacina no Brasil contemporâneo: política, desinformação e desafios à saúde pública Em 07 de julho de 2026 por GT de Saúde. Fonte: Comunicação Butantan. Por: Isabella Tardelli Maio e Giovanna Vitor. As narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas e a queda das coberturas vacinais tem gerado preocupação entre gestores públicos, profissionais da saúde e a sociedade em geral. Nesse contexto, este artigo busca compreender os fatores que contribuem para o fortalecimento do movimento antivacina, analisando sua trajetória histórica, suas formas contemporâneas de disseminação e seus impactos sobre a percepção pública acerca da vacinação. Introdução Segundo estudo realizado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV, 2025), o Brasil concentra 40% de todo o conteúdo antivacina circulado na América Latina e no Caribe. O dado é particularmente relevante diante da redução observada nas coberturas vacinais nos últimos anos e suscita reflexões sobre os fatores que têm contribuído para o aumento da hesitação vacinal e da disseminação de desinformação relacionada às vacinas. De acordo com o levantamento, o país foi responsável, na última década, pela circulação de mais de 580 mil conteúdos antivacina em comunidades online. As narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas. O estudo identificou alegações que associam as vacinas a supostos riscos como “morte súbita”, “envenenamento”, “autismo” e até mesmo alterações no DNA humano. Em geral, tais conteúdos baseiam-se em informações retiradas de contexto, interpretações equivocadas de eventos adversos raros ou afirmações sem respaldo científico. Apesar disso, alcançam um público expressivo e contribuem para a construção de percepções negativas sobre a imunização. O mapeamento realizado pelos pesquisadores analisou mais de 81 milhões de mensagens publicadas entre 2016 e 2025 em 1.785 comunidades digitais distribuídas por dezenas de países (Silva et al, 2025). Embora a resistência às vacinas não seja um fenômeno novo, a expansão das redes sociais digitais e a crescente circulação de conteúdos desinformativos conferiram nova dimensão ao problema. No Brasil, esse processo ganhou contornos particulares durante e após a pandemia de Covid-19, quando debates científicos passaram a ser fortemente atravessados por disputas políticas e ideológicas. Nesse contexto, compreender a ascensão do movimento antivacina e seus impactos sobre a cobertura vacinal torna-se fundamental para a formulação de estratégias de comunicação em saúde e para o fortalecimento das políticas públicas de imunização. Contexto internacional: origem e reconfiguração dos movimentos antivacina Desde a Antiguidade, diferentes técnicas foram desenvolvidas para combater enfermidades e reduzir seus impactos sobre as populações. A imunização por meio da inoculação vacinal, entretanto, é uma prática relativamente recente na história da humanidade. Em linhas gerais, a vacinação consiste na introdução de um antígeno no organismo com o objetivo de estimular o sistema imunológico a produzir defesas contra um agente infeccioso específico. No caso da varíola, uma das doenças mais letais e contagiosas já registradas, observava-se que indivíduos que sobreviviam à infecção adquiriam proteção contra novas contaminações. A partir dessa constatação, surgiram práticas que buscavam induzir artificialmente essa imunidade (Krizek, 2024). Uma das experiências mais antigas de imunização foi a variolação, desenvolvida na China por volta do século X. O método consistia na utilização de material retirado das lesões de pessoas infectadas, geralmente reduzido a pó, para provocar uma forma mais branda da enfermidade e, consequentemente, gerar proteção futura. Embora arriscada pelos padrões atuais, a técnica representou um importante avanço no combate à doença (Magenta, 2020). Oito séculos mais tarde, os estudos do médico britânico Edward Jenner possibilitaram o desenvolvimento das primeiras vacinas modernas. Ao observar que trabalhadores rurais que haviam contraído cowpox (varíola bovina) pareciam estar protegidos contra a varíola humana, Jenner formulou a hipótese de que a exposição à doença bovina poderia conferir imunidade. Para testá-la, em 1796, inoculou em um menino de oito anos material proveniente de lesões de cowpox. O garoto desenvolveu apenas sintomas leves e, após sua recuperação, foi exposto ao vírus da varíola humana. Como não apresentou a doença, Jenner concluiu que a infecção prévia pela varíola bovina havia conferido proteção contra a forma mais grave da enfermidade, estabelecendo as bases da vacinação moderna (Magenta, 2020). É importante destacar que esse experimento ocorreu em um contexto histórico no qual ainda não existiam os protocolos éticos e científicos que atualmente orientam pesquisas envolvendo seres humanos. Hoje, o desenvolvimento de vacinas é submetido a rigorosas etapas de pesquisa pré-clínica e clínica, além da avaliação de comitês de ética e agências reguladoras, antes de qualquer aplicação na população. Um estudo publicado em 2024 apontou que, desde 1974, a vacinação evitou aproximadamente 154 milhões de mortes em todo o mundo, incluindo 146 milhões de mortes entre crianças menores de cinco anos, das quais 101 milhões eram bebês com menos de um ano de idade (Shattock et al, 2024). Ainda assim, observa-se o crescimento de grupos resistentes à vacinação, cujas motivações envolvem fatores religiosos, culturais, políticos e sanitários. Embora a desconfiança em relação às vacinas não seja um fenômeno recente, um marco importante do antivacinismo contemporâneo ocorreu em 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou um estudo na revista científica The Lancet sugerindo uma associação entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e o desenvolvimento do autismo em crianças (Idoeta, 2017). Posteriormente, investigações demonstraram que os resultados haviam sido manipulados e que não existiam evidências científicas que sustentassem tal relação. Em decorrência disso, o artigo foi retratado pela revista e Wakefield perdeu seu registro profissional (Idoeta, 2017). Apesar da ampla refutação científica do estudo, sua repercussão contribuiu para fortalecer discursos antivacina em diferentes países, alimentando dúvidas sobre a segurança dos imunizantes e favorecendo a disseminação de informações falsas que continuam circulando, especialmente em ambientes digitais. Embora tenha ganhado maior visibilidade nas últimas décadas em razão da globalização e da ampliação dos meios de comunicação, o movimento antivacina – também conhecido como antivax – possui origens muito anteriores ao contexto contemporâneo. As primeiras manifestações organizadas de oposição à vacinação surgiram ainda no século XIX, em resposta às políticas de imunização obrigatória implementadas por alguns governos. Na Inglaterra, a vacinação contra a varíola tornou-se obrigatória pela

ENTRE COOPERAÇÃO E VETO: ESTRATÉGIAS DE GOVERNABILIDADE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO 

ENTRE COOPERAÇÃO E VETO: ESTRATÉGIAS DE GOVERNABILIDADE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO  Em 09 de junho de 2026 por GT de Eleições e Processo Decisório. Foto: Wikimedia Commons Por: Isabela Coimbra Hitomi, Paula Keiko Iwamoto Poloni e Vitória Santil. Você já se perguntou como as decisões são tomadas em Brasília? Nas últimas décadas, mudanças institucionais profundas, como a impositividade das emendas parlamentares e a expansão das emendas PIX, redistribuíram poder entre Executivo e Legislativo no Brasil. Se antes o Presidente controlava a agenda política por meio do orçamento e das coalizões, esse modelo não funciona da mesma forma. Mas isso significa que o Executivo perdeu capacidade de governar? É para entender o que esse novo arranjo institucional significa para a capacidade de ação do Executivo que este artigo se debruça sobre dois casos recentes: a Reforma Tributária (EC nº 132/2023) e a Política Nacional de Cuidados. Duas políticas de grande envergadura, aprovadas no mesmo período, mas que envolveram dinâmicas completamente distintas de relação entre os poderes. Ao longo do artigo, mostramos que o governo federal age em arenas distintas. A governabilidade contemporânea, portanto, não é sobre quem manda mais — é sobre saber onde e como agir.   Introdução  O fortalecimento recente do Congresso Nacional não eliminou a capacidade de ação do Executivo brasileiro, mas alterou suas estratégias de governabilidade. Em vez de exercer controle centralizado sobre a agenda política por meio da coordenação das coalizões parlamentares e da gestão discricionária do orçamento, o Executivo tem combinado negociação legislativa, desenho normativo seletivo e coordenação federativa como formas de viabilizar políticas públicas em um contexto de maior protagonismo do Legislativo. Durante grande parte da Nova República, a literatura sobre presidencialismo de coalizão destacou o protagonismo presidencial na formulação e implementação das políticas públicas (Abranches, 1988; Figueiredo; Limongi, 1999; 2008; Amorim Neto, 2006). O Executivo controlava instrumentos decisórios relevantes, como medidas provisórias, distribuição ministerial e execução orçamentária, utilizando-os para coordenar maiorias legislativas e assegurar governabilidade; entretanto, mudanças institucionais ocorridas especialmente a partir da década de 2010 alteraram significativamente esse equilíbrio. Neste cenário, as Emendas Constitucionais (EC) nº 86/2015 e nº 100/2019 consolidaram a impositividade das emendas parlamentares individuais e de bancada, ampliando a autonomia orçamentária do Legislativo. Paralelamente, a expansão das chamadas emendas PIX reforçou a capacidade parlamentar de direcionar recursos diretamente a estados e municípios, reduzindo a centralidade do Executivo na coordenação orçamentária. Ao mesmo tempo, crises políticas sucessivas, particularmente a partir do segundo governo Dilma Rousseff, contribuíram para o enfraquecimento da Presidência da República e para o avanço do protagonismo congressual no processo decisório. Desta maneira, este artigo analisa como o Executivo reorganizou suas estratégias de governabilidade diante desse novo arranjo institucional. Para isso, são examinadas duas situações que exemplificam formas distintas de relação entre Executivo e Legislativo: a Reforma Tributária de 2023 (EC nº 132/2023) e a Política Nacional de Cuidados (PNC). Enquanto a Reforma Tributária exigiu intensa negociação constitucional com um Congresso fortalecido, a Política Nacional de Cuidados permitiu ao Executivo concentrar parte relevante da implementação em instrumentos infralegais e mecanismos de coordenação federativa. Vale destacar que o objetivo do artigo não é realizar estudos de caso exaustivos, mas utilizar essas duas experiências como exemplos empíricos capazes de evidenciar estratégias distintas de governabilidade contemporânea. A comparação entre os dois contextos permite observar como o Executivo seleciona diferentes arenas institucionais, instrumentos normativos e mecanismos de implementação para reduzir pontos de veto e preservar capacidade de coordenação política.   Governabilidade e fortalecimento do Congresso Nacional A governabilidade pode ser compreendida como a capacidade do Executivo de transformar seu programa de governo em políticas públicas efetivas. Essa capacidade não depende apenas da aprovação legislativa, mas também da implementação das políticas em diferentes escalas federativas. Durante grande parte da Nova República, a literatura clássica sobre presidencialismo de coalizão enfatizou o protagonismo do Executivo na condução da agenda política nacional (Abranches, 1988; Figueiredo; Limongi, 1999; Amorim Neto, 2006). Nesse arranjo institucional, a execução de emendas parlamentares funcionava como importante instrumento de coordenação política. Os estudos de Pereira e Mueller (2002; 2003) demonstraram que parlamentares alinhados ao governo recebiam maior liberação de recursos orçamentários, fortalecendo a coalizão governista. Por sua vez, Baião, Couto e Jucá (2018) mostram ainda que distribuição ministerial e execução orçamentária operavam de forma articulada, permitindo ao Executivo administrar simultaneamente orçamento e sustentação política. Entretanto, as mudanças institucionais recentes alteraram significativamente essa dinâmica. A Emenda Constitucional nº 32/2001 promoveu mudanças relevantes no regime das Medidas Provisórias (MPs) ao proibir sua reedição continuada, estabelecer restrições materiais à sua utilização e reforçar o papel deliberativo do Congresso Nacional. Com isso, buscou limitar o uso excessivo desse instrumento pelo Executivo e reduzir sua capacidade de interferir unilateralmente na agenda legislativa (IPEA, 2011); enquanto as Emendas Constitucionais nº 86/2015 e nº 100/2019 consolidaram a impositividade das emendas parlamentares individuais e de bancada. Posteriormente, as emendas PIX ampliaram ainda mais a autonomia parlamentar sobre a execução orçamentária. Esse processo produziu mudanças relevantes na distribuição de poder entre Executivo e Legislativo. Em 2014, as transferências parlamentares representavam aproximadamente 17% das transferências discricionárias da União; em 2023, esse percentual alcançou cerca de 46%. Nesse mesmo período, o Congresso Nacional passou a exercer um papel mais ativo na formulação e implementação das políticas públicas, consolidando a dinâmica que Couto (2020; 2021) caracteriza como governo congressual. Ao mesmo tempo, a estabilidade presidencial passou a depender crescentemente da capacidade de articulação política do Executivo com o Legislativo. O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e as negociações orçamentárias realizadas durante o governo Jair Bolsonaro evidenciaram o fortalecimento do Congresso como ator central da governabilidade contemporânea. 2.1 Estratégias do Executivo diante de um Congresso fortalecido A Reforma Tributária e a Política Nacional de Cuidados (PNC) revelam estratégias distintas, mas complementares, de atuação do Executivo diante de um Legislativo fortalecido.  2.1.1 Reforma Tributária A Reforma Tributária (EC nº 132/2023) exigiu intensa negociação entre Executivo e Legislativo. Diferentemente de reformas anteriores, o Congresso Nacional assumiu uma função ativa na mediação dos interesses federativos e na construção da proposta. O Executivo precisou compartilhar protagonismo político durante a

A guerra além das bombas: disputa narrativa e opinião pública no conflito entre EUA, Israel e Irã

A guerra além das bombas: disputa narrativa e opinião pública no conflito entre EUA, Israel e Irã Em 09 de junho de 2026 por GT de Debate Público Online. Foto: Metrópoles  Por: Isabella Werneck Zanon e Gisele Mayumi Kobayashi. Este é o primeiro de uma série de textos que o Grupo de Debate Público Online do projeto do CAMPP apresenta sobre este conflito. A segunda parte examinará a guerra de desinformação e deepfakes que acompanhou os bombardeios. A terceira investigará como governos e a mídia ajustaram seus discursos em resposta à pressão pública. Em 28 de fevereiro de 2026, quando Donald Trump anunciou na rede Truth Social a morte do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques conjuntos dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a reação nas redes foi imediata, global e profundamente dividida. Nas 72 horas seguintes, o termo “iran” atingiu índice 100 no Google Trends em âmbito mundial: o maior pico de interesse desde o assassinato do general Qasem Soleimani, em janeiro de 2020. Mas quem estava buscando, e o que queria saber, conta uma história radicalmente diferente da que foi transmitida pelos principais canais de notícias ocidentais. Parte I  ·  28 dez 2025 – 9 jan 2026: Os Protestos Os protestos que eclodiram em 28 de dezembro de 2025 não foram fabricados em Washington nem em Tel Aviv. Foram desencadeados por um colapso cambial, o rial perdeu mais de 40% de seu valor em seis meses, e por uma inflação superior a 70% no preço dos alimentos. Em menos de duas semanas, as manifestações se espalharam por mais de 200 cidades e pelos 31 estados do país: a maior revolta popular desde a Revolução Islâmica de 1979. O regime respondeu com força letal. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026, a violência atingiu escala de massacre. As autoridades iranianas cortaram o acesso à internet a aproximadamente 1% da conectividade normal por mais de 60 horas contínuas, uma das mais severas interrupções digitais registradas em qualquer democracia ou autocracia no século XXI. Um dado mais revelador é a queda de 80% nas buscas em persa dentro do Irã, enquanto o resto do mundo explodia em curiosidade. Não foi desinteresse, foi silêncio forçado. A partir de 8 de janeiro de 2026, durante os massacres de manifestantes, as autoridades iranianas cortaram a internet do país a cerca de 1% da conectividade normal por mais de 60 horas, colocando os iranianos em uma posição na qual eles não conseguiam falar com o resto do mundo, isso é mostrado no dado mostrado pelo google trends onde houve uma queda de 80% nas buscas em “ایران” (Irã em persa). Os números de mortos viraram uma disputa de informação, as diferenças entre as fontes mostram tanto a falta de transparência do regime quanto a dificuldade de confirmação independente em áreas de conflito onde o acesso à internet é limitado. Fonte Mortos reportados Metodologia Governo iraniano (oficial) 3.117 Declaração do Conselho de Segurança Nacional Sunday Times (17/jan) 16.500–18.000 Fontes médicas dentro do Irã Relatora Especial da ONU Mai Sato >20.000 Relatórios médicos confidenciais The Guardian / Iran International 30.000–36.500 Hospitais e fontes locais, final de jan Trump (State of the Union, fev/2026) 32.000 Declaração pública sem fonte citada A diferença entre 3.117 e 36.500 mostra uma disputa sobre o que estamos dispostos a aceitar como real. E, em muitos casos, a mídia ocidental acabou adotando os números mais altos sem fazer a checagem rigorosa que faria em outros cenários.   Parte II  ·  28 fev 2026 – em diante: Operação Epic Fury A operação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel foi lançada em contexto de negociações diplomáticas em andamento e a própria inteligência americana havia concluído, em março de 2025, que o Irã não estava construindo uma arma nuclear. Esses dois fatos, centrais para qualquer avaliação do ato justificatório da guerra, estiveram sistematicamente ausentes da cobertura dominante nas primeiras semanas do conflito. Quando Trump anunciou a morte de Khamenei em 28 de fevereiro, os dados globais de busca registraram uma aceleração sem precedente e revelam o quanto o mundo está interessado no assunto. “guerra iran” (pt/es) +2.900% maior alta do período inteiro “strait of hormuz” +3.750% medo econômico global do bloqueio do petróleo “what is happening in iran” +800% o mundo buscando entender, não confirmar “ایران” (persa, dentro do Irã) –80% reflexo do apagão de internet imposto pelo regime “iran leader death” +2.600% após a confirmação da morte de Khamenei “iran krieg” (alemão) +3.900% maior interesse proporcional por país Dados: google trends A pergunta que mais disparou foi “what is happening in Iran”. O aumento de 800% diz muito por si só, as pessoas estão tentando entender o que aconteceu, mas diante do bombardeio de informações em mídias sociais e da falta de cobertura aprofundada na mídia ocidental tradicional, as pessoas não sabem para onde correr para obter informações mais confiáveis. E, quando o jornalismo não conseguiu oferecer clareza, o vazio acabou sendo preenchido com a história que estava mais à mão: a narrativa da libertação. Múltiplas pesquisas independentes conduzidas em março de 2026 apontam para o mesmo resultado com consistência estatística rara em temas tão polarizados: a maioria dos americanos, e uma maioria ainda mais ampla na Europa, se opunha à guerra. Fonte Amostra Contra a guerra A favor Data Pew Research Center 3.524 adultos 59% 38% 16–22 mar Marist Poll/NPR/PBS News 1.591 adultos 56% 44% 2–4 mar Reuters/Ipsos n.d. 43% 27% 1 mar Ipsos (ação militar) n.d. 58% – meados mar CBS (condução de Trump) n.d. 62% – 17–20 mar Quinnipiac (tropas terrestres) n.d. 74% – 5 mar Existe um dado que merece atenção especial porque documenta, com precisão clínica, como a opinião pública foi movida. Uma pesquisa da Schoen Cooperman Research mediu a variação no apoio à guerra antes e depois de os participantes receberam informações sobre os massacres de manifestantes iranianos em janeiro de 2026: Quando informados de que o governo iraniano teria matado entre 30.000 e 40.000 manifestantes, quase 6 em cada 10 americanos

CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto

CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto Em 24 de março de 2026 por CAMPP Recomenda. Por: Abraão Aguilera Entregue a nós em lindos retalhos, as memórias de um Brasil antigo (e também antiquado) operam sobre nós sentimentos desconhecidos e estridentes. As nuances da repressão do regime militar são enquadradas em “O Agente Secreto” de forma multifacetada: a violência corporativa dos Ghirotti; a repressão policial e seu cínico conluio com a imprensa local que dá vida à perna cabeluda; a negação da própria identidade. Condensadas no olhar distante de Armando Solimões, brilhantemente interpretado por Wagner Moura, tais nuances fazem com que o longa-metragem emane resistência ao apagamento da história, questionada e distorcida em nossos dias.  Pedindo escusas ao distanciamento que textos dessa seção exigem — que não é tamanha, já que foi eu quem a elaborou —, listo alguns de meus encantamentos: o cameo da música de Waldik Soriano, Dona Sebastiana (e aqui não sinto necessidade de justificar o peso dessa personagem e das tantas brasileiras que replica), o cinema São Luiz e, por questões similares às que me permitem escrever esse texto, a profissão de Armando. Com os justos pesos que cada período (ou regime) merece, ser cientista é ainda hoje desafiador. Entendi, ainda na sala de cinema, que havia uma mensagem implícita naquele enredo: o buraco é mais embaixo nas carreiras que remam contra a maré. Escrevendo esse texto na iminência do Oscars 2026 — o que tira, em partes, a suspeição de que sou um mero adulador —, sinto-me parte de um movimento de reconhecimento daquilo que é nosso, brasileiro: notado felizmente lá fora, e, mais felizmente ainda, aqui dentro. O sucesso de bilheteria, as premiações, os cortes das entrevistas do elenco nas redes sociais, as matérias caça-cliques sobre o filme, enfim, chega de listas! Me desculpem pela empolgação! Assista: sinta a tristeza brasileira, a felicidade brasileira, sinta-se um brasileiro por inteiro, pois é ano de copa!

DESENVOLVIMENTO É SOBERANIA?

O texto discute como a ideia de “desenvolvimento” no Brasil, especialmente na Amazônia, muitas vezes reproduz práticas coloniais. A partir da análise de políticas públicas, conflitos por terra e legislações recentes, o estudo mostra que projetos de desenvolvimento — inclusive os chamados sustentáveis — têm contribuído para a concentração de terras, a expansão do agronegócio e a retirada de territórios e modos de vida de povos racializados. O trabalho argumenta que, sem enfrentar problemas estruturais como a desigualdade fundiária, o racismo ambiental e a lógica econômica dominante, o desenvolvimento sustentável pode acabar sendo apenas uma nova forma de manter antigas práticas coloniais. Como alternativa, aponta a necessidade de um processo de descolonização que inclua a restituição das terras nativas e o reconhecimento do valor do trabalho historicamente explorado.

Tio Sam e as respostas do Brasil Pandeiro: uma retrospectiva

Entre o pandeiro e a diplomacia, o Brasil já não dança no mesmo compasso: a harmonia celebrada em Brasil Pandeiro deu lugar à instabilidade nas relações com os Estados Unidos diante dos avanços belicosos do presidente norte-americano.

Violência de gênero na caserna: o paradoxo de proteger enquanto se vive a própria violência.

A Polícia Militar de São Paulo manifesta um paradoxo institucional: ao mesmo tempo em que implementa políticas externas de acolhimento à mulher, preserva uma cultura organizacional que dificulta a proteção de suas próprias integrantes. Essas dinâmicas influenciam diretamente na segregação funcional e o silenciamento de violências contra as policiais dentro dos quartéis.