O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e a estratégia de Trump

Foto: fotospublicas.com
Por: Bruna Drudi Lacerda
No dia 29 de setembro de 2025, a Casa Branca publicou um plano proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para interromper a guerra em Gaza . Composto por 20 pontos, o plano sugere um cessar-fogo como acordo de paz entre Israel e o grupo Hamas. Contudo, o que parece ser uma manifestação de preocupação por parte do governo americano, pode não passar de estratégia de marketing político do presidente.
O conflito entre Palestina e Israel é uma disputa político-religiosa que vem sendo travada desde o século XIX, com diversas tentativas de acordos de conciliação entre os representantes das respectivas nações. Essa guerra ganhou maior destaque da mídia após o ataque do Hamas a Israel, gerando cerca de 1.200 vítimas israelenses, o que foi prontamente respondido pelas Forças de Defesa Israelenses, dando continuidade a uma série de ataques contra a população palestina, principalmente na cidade de Gaza. Estima-se que mais de 67 mil palestinos foram mortos com o desenrolar do conflito (Agência Brasil, 2025).
Governos do mundo todo se solidarizaram com a situação em Gaza, apoiando um cessar-fogo definitivo e pedindo uma resolução concreta para a situação. O governo americano, principal aliado de Israel, representado pelo presidente Donald Trump, tomou as rédeas da negociação e propôs, em setembro de 2025, um plano composto por 20 pontos que tanto Israel quanto o Hamas deveriam cumprir para que houvesse um acordo de paz.
O acordo foi assinado por Trump, sem a presença de representantes do Hamas e de Israel, em cúpula realizada no Egito, juntamente com representantes do Catar e da Turquia. A iniciativa do governo americano foi amplamente divulgada e discutida em todos os veículos de informação e plataformas digitais, dando a entender que a ação de Trump em pressionar seu aliado para aceitar o acordo seja memorável e digna de um Nobel da Paz. Contudo, Trump viabilizou estrategicamente um acordo que já vem sendo proposto antes mesmo de ele assumir a presidência, utilizando seu lema de negociador para propagar e reafirmar sua imagem como líder da principal potência mundial.
As ações de Trump perante o conflito em Gaza não possuem nenhum viés de preocupação com as vidas sendo perdidas, muito menos de concretizar um possível acordo de paz. Conforme relatado pelo professor do departamento de política da PUC-SP, Reginaldo Nasser, a ideia de cessar-fogo proposta por Trump difere-se, e muito, de um acordo que proponha uma condição de justiça e direitos, e que estabeleça um território e reconhecimento internacional definitivo para o Estado da Palestina, que é a raiz do conflito (UOL, 2025).
O presidente dos Estados Unidos, ao tomar as rédeas dessa conciliação, busca tão somente apoio internacional e reconhecimento de seu soft power por meio de estratégias argumentativas, que são divulgadas facilmente através de postagens nas redes sociais, as quais viralizam e fazem com que ele ganhe apoio ao redor do mundo . Porém, pensar que o acordo proposto é um sinal de que finalmente o conflito entre Israel e Palestina irá ter fim é um grande equívoco.
Trump, inclusive, vem apresentando uma reinterpretação do Oriente Médio, propondo transformar Gaza em uma Riviera. Em vídeo feito com inteligência artificial divulgado por ele mesmo em suas redes, o território é ilustrado como um destino turístico de luxo, sendo retratado com prédios modernos, ilhas artificiais, e com uma estátua do presidente, feita de ouro, em destaque. Com essa ação, Trump propõe reimaginar o território seguindo uma estratégia argumentativa baseada no orientalismo (Said, 1978), ou seja, quando afirma que, com sua interferência, o lugar finalmente seria considerado digno de ser visto, Trump reforça estereótipos criados do oriente como um lugar exótico, atrasado e perigoso, em contraste com a imagem ocidental de progresso.
Dessa forma, embora a iniciativa de Donald Trump tenha sido apresentada como um passo importante para o fim do conflito entre Israel e Palestina, é importante entender que o acordo não será o ponto final, e muito menos que o presidente deve ser reconhecido como o responsável pela paz em Gaza. Deve-se, mais do que nunca, filtrar os discursos desse representante político , entendendo que por trás de grandes atitudes, estão intenções estratégicas que visam empoderar sua imagem como líder.
Bibliografia
AFP. Os 20 pontos do plano de Trump para a paz em Gaza. UOL Notícias, 29 set. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/09/29/os-20-pontos-do-plano-de-trump-para-a-paz-em-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025.
AGÊNCIA BRASIL. Ataque do Hamas contra Israel completa um ano; Gaza vive pesadelo. Agência Brasil, Brasília, 7 out. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-10/ataque-do-hamas-contra-israel-completa-um-ano-gaza-vive-pesadelo. Acesso em: 05 nov. 2025.
BOWEN, Jeremy. Cessar-fogo em Gaza: ação de Trump foi decisiva para acordo, mas ainda está longe de garantir processo de paz. BBC Brasil, 15 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm2wyw17nl3o. Acesso em: 05 nov. 2025.
CNN Brasil. Após ataques de Israel, Trump diz que cessar-fogo em Gaza não corre risco. CNN Brasil, 29 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/apos-ataques-de-israel-trump-diz-que-cessar-fogo-em-gaza-nao-corre-risco/. Acesso em: 05 nov. 2025.
CNN Brasil. Plano de paz com 21 pontos anima Trump sobre fim da guerra em Gaza. CNN Brasil, 27 set. 2025, 11:26. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/plano-de-paz-com-21-pontos-anima-trump-sobre-fim-da-guerra-em-gaza/. Acesso em: 05 nov. 2025.
COUTINHO, Leonardo. Plano de paz: a solução para Gaza seria virar um resort? Gazeta do Povo, 02 out. 2025, 13:57. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/plano-de-paz-a-solucao-para-gaza-seria-virar-um-resort/. Acesso em: 05 nov. 2025.
FARIA, Adriano. Acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas é assinado por Donald Trump no Egito. Rádio Senado – Conexão Senado, 14 out. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/conexao-senado/2025/10/14/acordo-de-cessar-fogo-entre-israel-e-hamas-e-assinado-por-donald-trump-no-egito. Acesso em: 05 nov. 2025.
JARAMILLO, Alejandra. Casa Branca divulga “Acordo de Paz Trump” assinado em cúpula no Egito. CNN Brasil, 13 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/casa-branca-divulga-acordo-de-paz-trump-assinado-em-cupula-no-egito/. Acesso em: 05 nov. 2025.
MOITA, Sandro Teixeira. O acordo de paz entre Israel e o Hamas. Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), 22 out. 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/conflitos-belicos-e-terrorismo/conflito-israel-x-hamas/801-o-acordo-de-paz-entre-israel-e-o-hamas. Acesso em: 05 nov. 2025.
NASSER, Reginaldo. Cessar-fogo não é paz, diz Reginaldo Nasser sobre Gaza. UOL Notícias, 10 out. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/10/cessar-fogo-nao-e-paz-diz-reginaldo-nasser-sobre-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025.
TOKARNIA, Mariana. Guerra na Faixa de Gaza completa dois anos com mais de 67 mil mortos. Agência Brasil, 07 out. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-10/guerra-na-faixa-de-gaza-completa-dois-anos-com-mais-de-67-mil-mortos. Acesso em: 05 nov. 2025.
Sobre a autora:
- Bruna Drudi Lacerda é graduanda do Bacharelado de Relações Internacionais e do Bacharelado de Ciências e Humanidades pela UFABC.