OPINIÃO PÚBLICA ECONÔMICA E INFORMAÇÃO POLÍTICA: UMA ANÁLISE A PARTIR DO MODELO RAS DE ZALLER
Em 24 de julho de 2026 por GT de Eleições e Processo Decisório.

Foto: Folha de São Paulo.
Por: Paula Keiko Iwamoto Poloni e Micael Santana da Silva.
Este texto analisa a formação da opinião pública econômica no Brasil com base no modelo Receive-Accept-Sample (RAS), de John Zaller (1992). O estudo discute como a circulação de informações políticas, as predisposições individuais e a atuação da mídia influenciam a construção das percepções dos cidadãos sobre a economia. A partir da análise dos resultados da pesquisa nacional do Instituto Datafolha, realizada em março de 2026, observa-se que as avaliações econômicas da população são sensíveis às mudanças no ambiente informacional e variam conforme as orientações políticas dos entrevistados. Os resultados são consistentes com o modelo RAS, segundo o qual as opiniões são formuladas com base nas informações mais acessíveis na memória e filtradas por predisposições políticas. Conclui-se que a opinião pública econômica resulta da interação entre informação, contexto político e crenças individuais.
Palavras-chave: opinião pública; economia; informação política; mídia; comportamento político.
Introdução
Dentro do campo das políticas públicas, especialmente na área de comportamento político, grande parte dos estudos sobre opinião pública frequentemente concentram-se nos resultados das atitudes políticas, enquanto os mecanismos que influenciam sua formação recebem atenção relativamente menor. Nesse contexto, John Raymond Zaller, cientista político especializado em opinião pública e política americana do Departamento de Ciência Política na Universidade da Califórnia, Los Angeles, tornou-se uma referência clássica ao investigar os mecanismos pelos quais os indivíduos constroem seus julgamentos políticos a partir das informações disponíveis no ambiente político.
Em seu livro, The Nature and Origins of Mass Opinion, Zaller (1992) explora como as mensagens políticas chegam ao público e influenciam seu pensamento. Ele defende que a opinião pública não corresponde a um conjunto de ideias fixas armazenadas pelos indivíduos. Segundo o autor, as pessoas formulam suas opiniões utilizando as informações que estão mais disponíveis em determinado momento. Por isso, compreender como as informações circulam no ambiente político torna-se fundamental para entender a formação das atitudes e opiniões dos cidadãos.
Essa é uma perspectiva que se torna importante para o estudo dos fluxos de informação produzidos pelos meios de comunicação. Afinal, se algumas interpretações dos acontecimentos recebem mais visibilidade do que outras, elas tendem a ocupar posição privilegiada entre as informações disponíveis aos cidadãos, influenciando a formação da opinião pública.
O modelo RAS e a formação da opinião pública
O modelo Receive-Accept-Sample (RAS) descreve o processo de recepção informacional em três etapas. Os indivíduos recebem informações provenientes do ambiente político, aceitam ou rejeitam essas informações de acordo com suas predisposições e, posteriormente, utilizam uma amostra das considerações disponíveis em sua memória para responder a questões políticas.
Uma das contribuições centrais de Zaller (1992) consiste em mostrar que as opiniões expressas pelos cidadãos não correspondem necessariamente a posições previamente consolidadas. Por exemplo, ao serem questionadas sobre determinado tema, as pessoas recorrem às informações que estão mais acessíveis em sua memória naquele momento. Por isso, alterações no ambiente informacional podem influenciar os julgamentos formulados pelos indivíduos, uma vez que diferentes informações passam a compor o conjunto de considerações utilizado na construção de suas opiniões.
O autor também destaca a importância dos atores responsáveis pela produção e difusão de informações políticas (elites), como governantes, partidos, especialistas, lideranças políticas e meios de comunicação. Quando esses atores apresentam interpretações semelhantes sobre determinado tema, o público tende a receber mensagens mais homogêneas.
Por outro lado, quando há divergências entre essas fontes de informação, diferentes interpretações passam a circular com maior intensidade, ampliando as possibilidades de escolha dos indivíduos. Desse modo, a forma como as mensagens são distribuídas no ambiente comunicacional constitui elemento fundamental para compreender a formação da opinião pública.
A opinião pública acerca da economia brasileira em 2026
Os resultados da pesquisa nacional realizada pelo Instituto Datafolha em março de 2026 (2026) oferecem um retrato bastante ilustrativo da dinâmica contemporânea da opinião pública econômica no Brasil e permitem ampliar a discussão proposta neste artigo. Em consonância com o modelo Receive-Accept-Sample (RAS) de Zaller (1992), observa-se que as avaliações dos cidadãos sobre a economia apresentam elevada sensibilidade às mudanças do contexto político e informacional, não constituindo preferências rígidas ou permanentes.
Em comparação ao levantamento realizado em dezembro de 2025, a percepção sobre a economia brasileira deteriorou-se de maneira significativa. A parcela dos entrevistados que considera que a economia piorou passou de 41% para 46%, enquanto aqueles que avaliam que houve melhora recuaram de 29% para 24%. O mesmo movimento ocorreu em relação às expectativas futuras, pois o percentual de brasileiros que acreditam que a economia irá melhorar caiu de 46% para 30%, ao passo que os que esperam piora cresceram de 21% para 35%. Esses dados sugerem uma rápida alteração nas percepções econômicas da população em um intervalo inferior a quatro meses, evidenciando a elevada volatilidade característica das opiniões públicas sobre temas econômicos.
Essa dinâmica dialoga diretamente com o modelo de Zaller (1992). Se as opiniões são produzidas a partir das informações mais acessíveis na memória dos indivíduos, mudanças no ambiente informacional tendem a modificar o conjunto de considerações mobilizadas pelos cidadãos no momento de formular seus julgamentos. O levantamento do Datafolha não identifica quais mensagens produziram essa mudança, mas demonstra empiricamente que as avaliações econômicas variam rapidamente, comportamento compatível com a lógica prevista pelo modelo RAS.
Outro aspecto particularmente relevante diz respeito à forte associação entre avaliações econômicas e predisposições políticas. Entre os entrevistados que aprovam o governo Lula, 46% afirmam que a economia melhorou, e entre aqueles que pretendem votar em Lula para presidente, esse percentual alcança 50%. Em contraste, entre os entrevistados que desaprovam o governo, 75% avaliam que a economia piorou, percentual que sobe para 77% entre os eleitores de Flávio Bolsonaro. Diferenças semelhantes aparecem nas expectativas sobre inflação, desemprego e poder de compra dos salários, com eleitores de Lula apresentando avaliações sistematicamente mais otimistas do que eleitores de Flávio Bolsonaro.
Esses resultados reforçam o componente de aceitação das mensagens (accept) descrito por Zaller (1992), no qual os indivíduos não assimilam passivamente as informações recebidas, ao contrário, filtram-nas de acordo com predisposições ideológicas, identidades políticas e sistemas de crenças previamente estabelecidos. Assim, embora os cidadãos estejam expostos ao mesmo ambiente econômico nacional, suas interpretações diferem significativamente conforme suas orientações políticas, indicando que a recepção da informação ocorre de forma seletiva.
Naturalmente, os dados do Datafolha não permitem estabelecer relações causais entre cobertura midiática e formação das opiniões. Entretanto, oferecem evidências consistentes de que as percepções econômicas permanecem altamente sensíveis tanto às predisposições políticas quanto às mudanças conjunturais do ambiente informacional. Dessa forma, os resultados reforçam a hipótese central desenvolvida neste texto, pois a formação da opinião pública econômica depende menos da simples observação objetiva dos indicadores econômicos e mais da interação entre predisposições individuais, circulação desigual de informações e enquadramentos predominantes no debate público.
Considerações finais
A articulação das contribuições e análises referentes a teoria da formação da opinião pública desenvolvida por Zaller (1992), buscou discutir a formação da opinião pública econômica no Brasil a partir do modelo Receive-Accept-Sample (RAS), desenvolvido por John Zaller (1992), enfatizando o papel da informação política, das predisposições individuais e da circulação de mensagens no ambiente comunicacional. Em contraste com perspectivas que compreendem as opiniões políticas como preferências estáveis e plenamente estruturadas, o modelo de Zaller (1992) demonstra que os julgamentos dos cidadãos são construídos a partir das considerações mais acessíveis em sua memória no momento em que são solicitados a se posicionar sobre determinado tema.
A análise dos resultados da pesquisa Datafolha de março de 2026 mostrou-se compatível com essa perspectiva teórica. As rápidas mudanças nas avaliações da população sobre a economia brasileira, observadas em um curto intervalo de tempo, sugerem que as percepções econômicas são sensíveis às transformações do ambiente informacional e político. Ao mesmo tempo, as diferenças sistemáticas entre apoiadores e opositores do governo evidenciam que a recepção das informações ocorre de maneira seletiva, sendo mediada por predisposições políticas, identidades partidárias e sistemas de crenças, conforme previsto pelo componente accept do modelo RAS.
Embora os dados analisados não permitam identificar quais mensagens específicas produziram tais mudanças nem estabelecer relações causais entre cobertura midiática e opinião pública, eles reforçam a importância de compreender os mecanismos cognitivos e informacionais que antecedem a manifestação das atitudes políticas. Nesse sentido, a contribuição de Zaller permanece atual ao demonstrar que a opinião pública resulta da interação entre exposição à informação, predisposições individuais e disponibilidade de considerações na memória, e não apenas da observação objetiva da realidade econômica.
Referências
DATAFOLHA. Economia e sociedade: pesquisa nacional – março de 2026. São Paulo: Instituto Datafolha, 2026. Pesquisa realizada entre 3 e 5 de março de 2026, com 2.004 entrevistas. Relatório técnico.
ZALLER, John R. The nature and origins of mass opinion. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.