O Fim da Escala 6×1: A Força do Movimento “Vida Além do Trabalho”

Ana Clara Luduvico, Gisele Kobayashi e Giulia Ribeiro
A proposta de alteração da escala de trabalho 6×1 vem sendo debatida em mobilizações online e presenciais. No Brasil, é vista como um modelo insustentável, exploratório e causador de adoecimento da classe trabalhadora, embora seja legalmente amparada pela Constituição Federal. O debate ganhou significativa força nas mídias sociais através de relatos de exaustão e da falta de tempo para a vida pessoal, o que impulsionou uma luta coletiva com o impulsionamento de movimentos como o Vida Além do Trabalho (VAT), popularizado pelo influenciador Rick Azevedo. Essa mobilização digital resultou na apresentação de propostas de alteração legislativa, como a PEC 8/2025, de autoria da Deputada Federal Erika Hilton, que visa reduzir a jornada para 36 horas semanais, possibilitando a escala 4×3, e a PEC 231/1995, do Senador Paulo Paim, que propõe a redução para 40 horas semanais sem perda salarial. Constata-se um forte apoio popular ao fim da 6×1, com aprovação de grande parte dos brasileiros, unindo a sociedade em torno da causa, a qual a Deputada Erika Hilton ativamente promove nas redes sociais, rotulando a escala como “desumana” e obtendo grande visibilidade. Apesar disso, opositores, como o presidente da Câmara, levantam preocupações sobre as possíveis consequências negativas da medida para a economia e os empregadores. No entanto, o movimento reflete uma mudança de paradigma social, onde o bem-estar e o tempo de não-trabalho superam a centralidade do emprego. Em suma, a discussão sobre o fim da escala 6×1 evoluiu para uma pauta de dignidade e saúde pública, fortalecida pela conectividade social e pelo apoio político, demandando um regime de trabalho mais humano e digno no país.
A escala de trabalho 6×1, caracterizada pela imposição de seis dias trabalhados e apenas um dia de descanso, é avaliada como um modelo insustentável no contexto brasileiro. Embora seja observada em diversos setores da economia, principalmente no comércio e em serviços, essa organização é percebida como um sistema que promove a superexploração e que está intrinsecamente ligado à precarização e ao adoecimento da classe trabalhadora.
O debate sobre o fim dessa escala ganhou significativa visibilidade nas mídias sociais, onde se constata um volume de relatos que evidenciam a exaustão dos trabalhadores, bem como a falta de tempo para atividades essenciais, como o cuidado com a saúde, a qualificação profissional e o lazer. Tais discussões indicam uma transformação de uma pauta individual para uma luta coletiva, impulsionada, em parte, por movimentos como o Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou notoriedade após o relato do influenciador digital Rick Azevedo (atual vereador no Rio de Janeiro) no TikTok e rapidamente angariou milhões de apoiadores. Essa mobilização digital – “que utiliza processos personalizados e se organiza pelas tecnologias sociais” – se alinha à lógica da ação conectiva (connective action). Segundo Bennett e Segerberg (2012 apud Babo), essa ação é um modelo alternativo que surge quando os laços de grupos tradicionais – sindicatos e partidos – são substituídos por fluxos de larga escala nas mídias sociais.
A Constituição Federal de 1988 permite a adoção da escala 6×1, uma vez que respeita o limite máximo de 44 horas semanais de trabalho. No entanto, a crescente discussão sobre sua inadequação gerou o desenvolvimento de propostas de alteração legislativa. Atualmente, a redução da jornada está formalizada por meio de duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC): a PEC 8/2025, de autoria da Deputada Federal Erika Hilton (PSOL-SP), a qual propõe a redução da jornada semanal para 36 horas, viabilizando a escala 4×3 (quatro dias de trabalho para três de descanso) e a PEC 231/1995, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), a qual propõe a criação de um Novo Código do Trabalho, com foco na redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário.
A pesquisa da Nexus revelou que 67% dos conteúdos analisados nas redes sociais foram favoráveis à PEC, com o tema unindo a sociedade “independentemente de sua posição político partidária”. Este forte endosso popular é corroborado pela opinião pública: 65% dos brasileiros são favoráveis ao fim da 6×1, sendo o apoio ainda maior entre os jovens de 16 a 24 anos (76%) e os desempregados (73%).
A deputada federal Erika Hilton que assumiu a frente da causa teve sua estratégia de comunicação alinhada à dinâmica das redes: a parlamentar engajou-se ativamente no X (antigo Twitter) rotulando a escala 6×1 como “desumana” e incentivando os usuários a cobrarem o apoio de parlamentares pela aprovação da PEC. Essa sinergia entre o movimento Vida Além do Trabalho e a ação política resultou em ganhos concretos de visibilidade: Erika Hilton chegou a ganhar cerca de 24 mil seguidores em uma semana devido ao tema, com um único post sobre a pauta alcançando 404 mil interações.
Contudo, mesmo com as melhorias que a redução da jornada de trabalho promoveria às condições de vida da ampla maioria dos trabalhadores, os opositores alegam que esse novo regime teria consequências negativas para a economia e para os empregadores brasileiros. Segundo Hugo Motta (presidente da Câmara dos Deputados), a medida pode não ser viável, além de privilegiar apenas um lado do debate; o que por consequência atrasa e dificulta o processo de tramitação da PEC.
Esse apoio popular à PEC faz referência a tendência proposta por Gorz (1995) em “Saindo da sociedade do trabalho assalariado”, em que há uma inversão de valores sobre o trabalho: o trabalhador deixa de vê-lo como o principal fator de realização individual, desejando uma redução do tempo de trabalho e a apropriação individual e coletiva do tempo. Desse modo, a insatisfação se exprimiu na assinatura de abaixo-assinado online contra a escala 6×1 e as articulações pelas redes sociais a favor da redução da jornada, propondo o aumento do tempo livre. Devido à grande mobilização, também foi organizado um plebiscito popular, sendo que uma das propostas é pelo fim dessa escala sem redução salarial.
O debate acerca do fim da escala 6×1 superou a esfera trabalhista, tornando-se uma pauta central de dignidade e saúde pública, impulsionada pela conectividade das mídias digitais e pelo alinhamento da ação política. A forte rejeição popular a um modelo de trabalho percebido como exploratório reflete uma mudança de paradigma, onde o tempo de não-trabalho e o bem-estar superam a centralidade do emprego. Embora as propostas de redução da jornada enfrentem resistências históricas e políticas, a expressiva mobilização da sociedade civil e o crescente apoio legislativo demonstram que a busca por um regime de trabalho mais humano, que assegure o equilíbrio entre sustento e qualidade de vida, é uma demanda social de extrema importância no Brasil.
Referências
BABO, Isabel. Redes, ativismo e mobilizações públicas. Ação coletiva e ação conectada. Estudos em Comunicação, 2018, 1.27.
BOEHM, Camila. PEC 6 por 1: 67% das manifestações nas redes sociais foram a favor. Agência Brasil, Brasília, 18 nov. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-11/pec-do-6×1-67-das-manifestacoes-nas-redes-sociais-foram-favor. Acesso em: 6 out. 2025.
COMISSÃO EXECUTIVA NACIONAL DO PLEBISCITO POPULAR. Cartilha: Plebiscito Popular (Decidir os rumos da nação). [S.l.]: Comissão Executiva Nacional do Plebiscito Popular, 2025. 46 p. Disponível em: https://plebiscitopopular.org.br. Acesso em: 10 out. 2025.
EXAME. Escala 6×1: o movimento VAT (vida além do trabalho). Exame, São Paulo, 11 nov. 2024. Disponível em: https://exame.com/carreira/escala-6×1-movimento-vat-vida-alem-do-trabalho/. Acesso em: 6 out. 2025.
GAZETA DO POVO. 65% de brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1, diz pesquisa. Gazeta do Povo, [S. l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/65-brasileiros-sao-favoraveis-ao-fim-da-escala-6×1-diz-pesquisa/. Acesso em: 6 out. 2025.
OTTONI, Bruno. Quem são, e onde estão, os trabalhadores da escala 6×1? Conjuntura Econômica, Jan. 2025, p. 36-38.
UNIVERSIDADE DE FORTALEZA. O que é a escala 6×1 e qual seu impacto socioeconômico no Brasil? Unifor, Fortaleza, 2 dez. 2024. Disponível em: https://unifor.br/-/o-que-e-a-escala-6×1-e-qual-seu-impacto-socioeconomico-no-brasil. Acesso em: 6 out. 2025.
JARDIM, Lauro. Autora de PEC 6×1, Hilton foi a 3ª deputada que ganhou mais seguidores na última semana. O Globo, Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2024/11/autora-de-pec-6×1-hilton-foi-a-3a-deputada-que-ganhou-mais-seguidores-na-ultima-semana.ghtml. Acesso em: 13 out. 2025.
Sobre as autoras:
Ana Clara Luduvico: graduanda em Ciências e Humanidades e no Bacharelado em Políticas Públicas pela UFABC. Atualmente, faz iniciação científica, pesquisando sobre a comunicação política do MST no TikTok.
Gisele Kobayashi: Engenheira de Telecomunicações pela UNITAU e Graduanda do Bacharelado em Ciências e Humanidades e do Bacharelado em Políticas Públicas pela UFABC. Integra a rede Própolis de pesquisadoras do movimento MEL (Mulheres em Lutas) e participa do movimento VAT Mulher (Vida além do Trabalho).
Giulia Ribeiro: graduanda em Ciências e Tecnologia pela UFABC e possui formação em Marketing. Atualmente, desenvolve pesquisa científica sobre propaganda eleitoral digital, polarização e fragmentação da opinião pública, com ênfase no impacto das plataformas digitais e nas implicações éticas e sociais desse processo.