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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

A guerra além das bombas: disputa narrativa e opinião pública no conflito entre EUA, Israel e Irã

Em 09 de junho de 2026 por GT de Debate Público Online.

Foto: Metrópoles 

Por: Isabella Werneck Zanon e Gisele Mayumi Kobayashi.

Este é o primeiro de uma série de textos que o Grupo de Debate Público Online do projeto do CAMPP apresenta sobre este conflito. A segunda parte examinará a guerra de desinformação e deepfakes que acompanhou os bombardeios. A terceira investigará como governos e a mídia ajustaram seus discursos em resposta à pressão pública.

Em 28 de fevereiro de 2026, quando Donald Trump anunciou na rede Truth Social a morte do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques conjuntos dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a reação nas redes foi imediata, global e profundamente dividida. Nas 72 horas seguintes, o termo “iran” atingiu índice 100 no Google Trends em âmbito mundial: o maior pico de interesse desde o assassinato do general Qasem Soleimani, em janeiro de 2020. Mas quem estava buscando, e o que queria saber, conta uma história radicalmente diferente da que foi transmitida pelos principais canais de notícias ocidentais.

Parte I  ·  28 dez 2025 – 9 jan 2026: Os Protestos

Os protestos que eclodiram em 28 de dezembro de 2025 não foram fabricados em Washington nem em Tel Aviv. Foram desencadeados por um colapso cambial, o rial perdeu mais de 40% de seu valor em seis meses, e por uma inflação superior a 70% no preço dos alimentos. Em menos de duas semanas, as manifestações se espalharam por mais de 200 cidades e pelos 31 estados do país: a maior revolta popular desde a Revolução Islâmica de 1979.

O regime respondeu com força letal. Nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026, a violência atingiu escala de massacre. As autoridades iranianas cortaram o acesso à internet a aproximadamente 1% da conectividade normal por mais de 60 horas contínuas, uma das mais severas interrupções digitais registradas em qualquer democracia ou autocracia no século XXI.

Um dado mais revelador é a queda de 80% nas buscas em persa dentro do Irã, enquanto o resto do mundo explodia em curiosidade. Não foi desinteresse, foi silêncio forçado. A partir de 8 de janeiro de 2026, durante os massacres de manifestantes, as autoridades iranianas cortaram a internet do país a cerca de 1% da conectividade normal por mais de 60 horas, colocando os iranianos em uma posição na qual eles não conseguiam falar com o resto do mundo, isso é mostrado no dado mostrado pelo google trends onde houve uma queda de 80% nas buscas em “ایران” (Irã em persa).

Os números de mortos viraram uma disputa de informação, as diferenças entre as fontes mostram tanto a falta de transparência do regime quanto a dificuldade de confirmação independente em áreas de conflito onde o acesso à internet é limitado.

Fonte

Mortos reportados

Metodologia

Governo iraniano (oficial)

3.117

Declaração do Conselho de Segurança Nacional

Sunday Times (17/jan)

16.500–18.000

Fontes médicas dentro do Irã

Relatora Especial da ONU Mai Sato

>20.000

Relatórios médicos confidenciais

The Guardian / Iran International

30.000–36.500

Hospitais e fontes locais, final de jan

Trump (State of the Union, fev/2026)

32.000

Declaração pública sem fonte citada

A diferença entre 3.117 e 36.500 mostra uma disputa sobre o que estamos dispostos a aceitar como real. E, em muitos casos, a mídia ocidental acabou adotando os números mais altos sem fazer a checagem rigorosa que faria em outros cenários.

 

Parte II  ·  28 fev 2026 – em diante: Operação Epic Fury

A operação militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel foi lançada em contexto de negociações diplomáticas em andamento e a própria inteligência americana havia concluído, em março de 2025, que o Irã não estava construindo uma arma nuclear. Esses dois fatos, centrais para qualquer avaliação do ato justificatório da guerra, estiveram sistematicamente ausentes da cobertura dominante nas primeiras semanas do conflito.

Quando Trump anunciou a morte de Khamenei em 28 de fevereiro, os dados globais de busca registraram uma aceleração sem precedente e revelam o quanto o mundo está interessado no assunto.

“guerra iran” (pt/es)

+2.900%

maior alta do período inteiro

“strait of hormuz”

+3.750%

medo econômico global do bloqueio do petróleo

“what is happening in iran”

+800%

o mundo buscando entender, não confirmar

“ایران” (persa, dentro do Irã)

–80%

reflexo do apagão de internet imposto pelo regime

“iran leader death”

+2.600%

após a confirmação da morte de Khamenei

“iran krieg” (alemão)

+3.900%

maior interesse proporcional por país

Dados: google trends

A pergunta que mais disparou foi “what is happening in Iran”. O aumento de 800% diz muito por si só, as pessoas estão tentando entender o que aconteceu, mas diante do bombardeio de informações em mídias sociais e da falta de cobertura aprofundada na mídia ocidental tradicional, as pessoas não sabem para onde correr para obter informações mais confiáveis. E, quando o jornalismo não conseguiu oferecer clareza, o vazio acabou sendo preenchido com a história que estava mais à mão: a narrativa da libertação.

Múltiplas pesquisas independentes conduzidas em março de 2026 apontam para o mesmo resultado com consistência estatística rara em temas tão polarizados: a maioria dos americanos, e uma maioria ainda mais ampla na Europa, se opunha à guerra.

Fonte

Amostra

Contra a guerra

A favor

Data

Pew Research Center

3.524 adultos

59%

38%

16–22 mar

Marist Poll/NPR/PBS News

1.591 adultos

56%

44%

2–4 mar

Reuters/Ipsos

n.d.

43%

27%

1 mar

Ipsos (ação militar)

n.d.

58%

meados mar

CBS (condução de Trump)

n.d.

62%

17–20 mar

Quinnipiac (tropas terrestres)

n.d.

74%

5 mar

Existe um dado que merece atenção especial porque documenta, com precisão clínica, como a opinião pública foi movida. Uma pesquisa da Schoen Cooperman Research mediu a variação no apoio à guerra antes e depois de os participantes receberam informações sobre os massacres de manifestantes iranianos em janeiro de 2026:

Quando informados de que o governo iraniano teria matado entre 30.000 e 40.000 manifestantes, quase 6 em cada 10 americanos (59%) tornaram-se mais favoráveis à operação militar. Entre democratas, o apoio quase dobrou, saltando de cerca de 17% para 32%. (Schoen Cooperman Research / The Hill, março 2026)

A apresentação seletiva das mortes de manifestantes, sem o contexto de que os ataques ocorreram enquanto negociações diplomáticas estavam em andamento, e de que a própria inteligência americana havia concluído, em março de 2025, que o Irã não estava construindo uma arma nuclear, foi suficiente para mover substancialmente a opinião pública.

A narrativa dominante nos primeiros dias da guerra de 2026 foi de euforia na diáspora iraniana, pessoas celebrando a morte de Khamenei, acenando bandeiras do Leão e Sol (símbolo do movimento monarquista), projetando um futuro de liberdade. Essa narrativa era parcialmente verdadeira, mas incompleta. 

“Esta é uma guerra supostamente travada em nosso nome. Não é baseada em dados, fatos ou realidade. É baseada em uma campanha por mudança de regime a qualquer custo.” Jamal Abdi, presidente do National Iranian American Council, comentando pesquisa Zogby Analytics, março/abril 2026

A Zogby Analytics documentou o que aconteceu depois:

Pesquisa Zogby Analytics – Iranianos-americanos (Março/Abril 2026)

~65% agora se OPÕEM à guerra, virada em relação ao início do conflito, quando as opiniões estavam divididas

60% acreditam que os iranianos comuns estarão PIORES daqui a um ano

+50% acreditam que a República Islâmica continuará NO PODER, apesar dos ataques

17pp queda no apoio à guerra em apenas algumas semanas,  o maior movimento da pesquisa

A pesquisa mais reveladora sobre o que os iranianos dentro do Irã realmente pensam vem do GAMAAN (Grupo de Análise e Mensuração de Atitudes no Irã), que conduz pesquisas via VPN para garantir anonimato e segurança aos participantes. Em setembro de 2025, após a Guerra dos 12 Dias de Israel contra o Irã, o GAMAAN coletou mais de 30.000 respostas de dentro do país:

O que os iranianos dentro do Irã pensam (n>30.000)

Questão

Resultado

Não votariam na República Islâmica em eleição livre

70–80%

Apoiam um sistema político democrático

89%

Concordam: “Nosso inimigo está aqui mesmo, eles mentem dizendo que é a América” (testado 2021)

73%

Concordam: “Nem Gaza, nem Líbano, dou minha vida só pelo Irã” (testado 2021)

64%

Apoiam a monarquia como alternativa (aumento em 2025 pela primeira vez)

~33%

Fonte: GAMAAN (Set/2025)

O que esses números revelam é um paradoxo que a cobertura midiática dominante sistematicamente colapsa: a maioria dos iranianos quer o fim do regime, mas por suas próprias mãos, não por meio de bombardeios estrangeiros. Querer a mudança de regime e apoiar a guerra dos EUA são duas coisas completamente diferentes. Apresentá-las como equivalentes é, no mínimo, jornalisticamente impreciso ou até tendencioso.

A divisão global é igualmente clara, com apenas uma exceção:

Opinião pública global sobre a guerra EUA-Israel × Irã (Mar/2026)

País/Região

Posição majoritária

Percentual

Fonte

Espanha

Contra a intervenção

76%

Centro CIS

Reino Unido

Contra os ataques EUA

57%

YouGov

Europa Ocidental (geral)

Contra assistência militar a Israel

72–86%

YouGov EuroTrack

EUA (ação militar geral)

Contra ataques militares

58%

Ipsos

EUA (tropas terrestres)

Contra tropas no Irã

78%

Ipsos

Israel

A favor da guerra

82–93%

Israel Democracy Institute

A única população que apoia a guerra em maioria esmagadora é a israelense (82%), sendo o apoio de 93% entre judeus israelenses. Em todos os outros países pesquisados, incluindo os próprios EUA, a maioria se opõe. O Arab Opinion Index 2025, que entrevistou mais de 40.000 pessoas em 15 países árabes, registrou oposição massiva à normalização com Israel, em contexto diretamente relacionado ao conflito.

Diante dos resultados das pesquisas de opinião e dos indicadores analisados, observa-se um cenário marcado por divisões e por variações sensíveis a eventos e à cobertura midiática. Entre os norte-americanos, o posicionamento em relação ao conflito é condicionado por fatores como custos humanos, impactos econômicos e ameaças geopolíticas, amplamente divulgados pelas redes sociais. Ao mesmo tempo, as percepções também são influenciadas pelos protestos internos no Irã e sobre a legitimidade de intervenções externas. 

O debate público sobre a guerra não se resume a um simples apoio ou rejeição, ele envolve valores e interesses que se entrelaçam e perpassam por questões de estratégia, interesses econômicos, ética, poder e controle da narrativa. Não é um simples embate entre o mundo ocidental e o oriente, mas envolve diferentes camadas que precisam ser analisadas.

Referências:

GOOGLE TRENDS. Google Trends Worldwide: Iran search data (jan.–abr. 2026). 2026. Disponível em: https://trends.google.com. Acesso em: 8 maio 2026.

IPSOS. Public opinion poll on Iran conflict. 2026. Disponível em: https://www.ipsos.com/pt-br/ipsos-update-abril-2026. Acesso em: 8 maio 2026.

MARIST POLL. War with Iran – March 2026 survey. 2026. Disponível em: https://maristpoll.marist.edu/polls/war-with-iran-march-2026. Acesso em: 8 maio 2026.

PEW RESEARCH CENTER. Public opinion on U.S. military action against Iran. 2026. Disponível em: https://www.pewresearch.org/politics/2026/03/25/americans-broadly-disapprove-of-u-s-military-action-in-iran/. Acesso em: 8 maio 2026. 

QUINNIPIAC UNIVERSITY. U.S. voter attitudes on Iran conflict. 2026. Disponível em: https://poll.qu.edu. Acesso em: 8 maio 2026.

THE CONVERSATION. Iran protests and public opinion data. 2026. Disponível em: https://theconversation.com/iran-protests-2026-our-surveys-show-iranians-agree-more-on-regime-change-than-what-might-come-next-273198. Acesso em: 8 maio 2026.

THE HILL. Survey on U.S. opinion and Iran protests. 2026. Disponível em: https://thehill.com. Acesso em: 8 maio 2026.

THE INTERCEPT. Iranian-American opinion survey. 2026. Disponível em: https://theintercept.com/2026/04/01/. Acesso em: 8 maio 2026.