A Guerra da Desinformação: Deepfakes, IA e a Transformação dos Conflitos
Em 09 de julho de 2026 por GT de Debate Público Online.

Foto: Reuters/Dado Ruvic
Por: Isabella Werneck Zanon.
Em 2023, estima-se que 500.000 deepfakes foram compartilhados online. Em 2025, esse número chegou a 8 milhões, um aumento de 1.500% em dois anos. (Ceartas) A guerra Irã–EUA–Israel de 2026 representa o momento em que essas trajetórias tecnológicas e geopolíticas convergiram com força máxima. Mas o que tornou esta guerra diferente de todas as anteriores não foi apenas a quantidade de conteúdo falso, e sim a forma estratégica como esse conteúdo foi projetado para fazer e o que ele conseguiu esconder, revelando uma nova camada informacional nas guerras contemporâneas.
Em junho de 2025, durante os 12 dias de conflito direto entre Israel e Irã, o Observatório Europeu de Mídia Digital (EDMO) registrou algo inédito na história dos conflitos modernos: pela primeira vez, mais desinformação foi criada por IA generativa do que por métodos tradicionais. Os três vídeos falsos mais vistos da Guerra dos 12 Dias acumularam, coletivamente, mais de 100 milhões de visualizações.
Oito meses depois, com ferramentas de IA gerando resultados significativamente mais realistas e acessíveis a um número muito maior de atores, o conflito de fevereiro de 2026 replicou esse modelo em escala muito maior, com inovações táticas importantes. O que, em junho de 2025, foi considerado um surto de desinformação sem precedentes tornou-se, em março de 2026, a nova normalidade da guerra informacional. Em entrevista à Euronews (30/03/2026), o especialista em desinformação, professor Jones destacou que as falhas foram superadas e que esta tecnologia passou a estar acessível a qualquer pessoa com um smartphone.
A cobertura midiática ocidental dominante cobriu a guerra de desinformação como um problema principalmente iraniano: Teerã fabrica conteúdo falso, enquanto as democracias verificam. Essa narrativa é uma forma de desinformação por omissão. A análise do ecossistema informacional do conflito revela operações coordenadas e documentadas em múltiplas direções e ao menos uma campanha diretamente ligada a Israel, que utilizou deepfakes durante ataques cinéticos reais, é demonstrada na tabela 1.
ATOR | CONTEÚDO | PLATAFORMA | FONTE |
Irã/contas pró-Irã | Vídeo falso de ataque ao USS Abraham Lincoln; soldados americanos capturados ajoelhados sob bandeiras iranianas; cidades israelenses em chamas; frota naval destruída | TikTok, X, Facebook, Instagram: 145 mi+ visualizações em 2 semanas | Cyabra (mar 2026); AFP |
Irã/contas pró-Irã | Deepfakes de Netanyahu como robô defeituoso com múltiplos dedos; deepfakes de Bennett; imagens do corpo de Khamenei sob escombros (imediatamente após morte) | X, Telegram: espalhados globalmente antes de verificação | Foreign Policy (mar 2026) |
EUA/Casa Branca | Contas oficiais postaram vídeos intercalando filmagens de bombardeios reais com cenas de Top Gun, Braveheart e referências ao videogame Wii Sports | X, Instagram: postagens de contas oficiais verificadas | Reuters Institute for the Study of Journalism (mai 2026) |
Israel/operação “PRISONBREAK” | Rede coordenada com dezenas de contas: imagens e vídeos gerados por IA, imitação de veículos jornalísticos legítimos, deepfakes durante ataques cinéticos reais — com objetivo explícito de incitar a derrubada do governo iraniano | Múltiplas plataformas, campanha documentada por pesquisa acadêmica independente | Citizen Lab, Universidade de Toronto (2026) |
Atores difusos (múltiplos) | Vídeo de game (Call of Duty et al.) apresentado como batalha real; imagens de explosões na Ucrânia e na China reaproveitadas como ataques em Israel; imagem aérea de cemitério em Zanjan apresentada como vala comum em Minab | X, TikTok: viralização antes de remoção | AFP Global Fact-Checkers; BBC Verify |
Irã/contas pró-Irã | Rede de bots no Reino Unido que havia espalhado conteúdo pró-independência escocesa e anti-Brexit silenciou por 16 dias após os ataques e retornou com mensagens explicitamente pró-Irã | X, UK: operação estatal documentada | Cyabra, relatório Cipher Brief (mar 2026) |
Tabela 1: Elaborada pela autora
O Citizen Lab da Universidade de Toronto documentou a operação “PRISONBREAK” com detalhes que a mídia ocidental praticamente ignorou: uma rede coordenada por Israel, usando IA generativa, que imitava veículos jornalísticos reais e distribuía deepfakes durante janelas de ataques físicos para maximizar o impacto psicológico. O objetivo declarado era fomentar a instabilidade interna no Irã. O fato de que isso foi feito com as mesmas ferramentas que, quando usadas por Teerã, são denunciadas como “propaganda estatal” raramente apareceu na cobertura dos mesmos canais que documentaram as operações iranianas.
Além disso, a análise forense da Cyabra sobre as campanhas iranianas revelou uma inovação tática central: a coordenação em escala. Dezenas de milhares de contas inautênticas distribuíram ativos de IA idênticos simultaneamente em todas as principais plataformas, com janelas de postagem sincronizadas e clusters de hashtags coordenados apontando para produção centralizada de conteúdo. Dos perfis envolvidos na amplificação da campanha, 19% foram identificados como inautênticos, mas bastaram para catapultar vídeos fabricados ao topo dos trending topics antes que qualquer mecanismo de verificação pudesse reagir. (Cyabra)
Em conflitos de alta velocidade, a informação verificada quase sempre chega atrasada, e é justamente nesse intervalo que a desinformação ocupa espaço. Ela funciona assim por design. O neurocientista da comunicação Alexios Mantzarlis, diretor do Security, Trust, and Safety Initiative da Cornell Tech, descreveu esse problema com precisão clínica ao afirmar que o conteúdo criado por IA se torna mais eficaz e mais enganoso quando aparece misturado a material real, porque as pessoas têm mais dificuldade de analisá-lo no modo rápido, distraído e automático com que normalmente consomem informação online. Mesmo quando o espectador teria capacidade de reconhecer que algo é falso se parasse para observar com atenção, na prática ele continua rolando a página e absorve apenas uma impressão rápida.
Existe um fenômeno que pesquisadores chamam de “liar’s dividend”, ou dividendo do mentiroso, no qual, em ambientes saturados por deepfakes, a simples existência da tecnologia de fabricação começa a contaminar a credibilidade de documentos autênticos. Qualquer imagem real pode ser descartada como falsa, assim como qualquer vídeo legítimo pode ser contestado como produto de IA generativa. Quando a desinformação se espalha de forma suficientemente difusa, ela já não precisa convencer ninguém de uma mentira específica. Basta destruir a confiança no que é verdadeiro.
Essa dinâmica apareceu de forma concreta durante o conflito de 2026 por meio de um ator inesperado: Grok, o chatbot de IA integrado ao X. O DFRLab tabulou mais de 300 respostas do Grok ao mesmo vídeo falso, um único clipe de um aeroporto supostamente bombardeado, e as respostas se contradiziam de minuto a minuto. Em uma delas, o sistema dizia que “o vídeo provavelmente mostra danos reais”; em outra, afirmava que “provavelmente não é autêntico”. O diretor do DFRLab, Emerson Brooking, resumiu o problema dizendo: “O que estamos vendo é a IA mediando a experiência da guerra.” Em outra situação, o Google Gemini e o próprio Grok identificaram de forma equivocada imagens do massacre da Escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, destruída por mísseis em 28 de fevereiro e que matou ao menos 120 crianças, a incerteza gerada pela IA facilitou a disputa de narrativas. Apesar de análises da Human Rights Watch indicarem que a escola havia sido separada da base militar vizinha anos antes e de organizações como a Amnesty International apontarem possíveis violações do direito internacional humanitário pelos Estados Unidos, Donald Trump atribuiu o ataque ao Irã com alegações refutadas, enquanto a Casa Branca mantinha a investigação em andamento.
O mecanismo foi exatamente o mesmo descrito anteriormente: uma informação não verificada, enquadrada como declaração presidencial, ocupou o vácuo antes que qualquer conclusão fosse possível. E a resposta das plataformas ao dilúvio de desinformação foi tardia, insuficiente e, em pelo menos um caso, reveladora de um conflito de interesses: um relatório do Tech Transparency Project, publicado semanas antes das respostas às campanhas de deepfakes, revelou que o X aparentemente estava lucrando com mais de duas dúzias de contas premium pertencentes a funcionários do governo iraniano e veículos de mídia estatal, possivelmente em violação de sanções americanas. O X removeu posteriormente as marcas de verificação de algumas dessas contas.
Há um detalhe sobre a Escola de Minab que apareceu muito pouco nos textos sobre desinformação: a principal ferramenta usada para atribuir o massacre ao Irã não foi um deepfake. Foi uma declaração presidencial americana, feita sem evidências, e depois reproduzida por canais de notícias que, pouco antes, haviam denunciado a desinformação iraniana com toda a vigilância jornalística disponível.
Isso não significa igualar as ações de todos os lados. A desinformação estatal coordenada, como a que a Cyabra documentou nas redes iranianas, ou como a operação “PRISONBREAK”, analisada pelo Citizen Lab, é qualitativamente diferente de uma declaração presidencial equivocada. Ainda assim, a diferença de tratamento que cada tipo de desinformação recebe na cobertura midiática dominante é, por si só, um dado jornalisticamente relevante. O ecossistema que permitiu que 145 milhões de pessoas vissem conteúdo fabricado em apenas duas semanas não foi criado exclusivamente pelo Irã, pelos Estados Unidos ou por Israel. Ele foi produzido por arquiteturas de plataforma que remuneram o engajamento sem levar em conta a veracidade, por regulações que chegam tarde demais, por ferramentas de IA usadas ao mesmo tempo para criar e para autenticar falsidades, e também por um modelo de cobertura jornalística que costuma documentar as mentiras do inimigo com muito mais rigor do que examina as mentiras do aliado.
Referências
CYABRA. Iran’s coordinated campaign. mar. 2026. Disponível em: https://cyabra.com/blog/how-iran-used-ai-to-fight-a-war-online/
Erkan’s Field Diary. Disinformation in the Iran-Israel-US War: Major Cases and Patterns as of 6 March 2026. 2026. Disponível em: https://erkansaka.net/2026/03/06/iran-war-disinformation-ai-2026-6-march/
IPSOS. Public opinion poll on Iran conflict. 2026. Disponível em: https://www.ipsos.com/pt-br/ipsos-update-abril-2026.
THE CIPHER BRIEF. When deepfakes become doctrine. 23 mar. 2026. Disponível em: https://www.thecipherbrief.com/when-deepfakes-become-doctrine
EURONEWS. Did you spot these fake videos about the Iran war?. 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.euronews.com/my-europe/2026/03/06/did-you-spot-these-fake-videos-about-the-iran-war
TIME MAGAZINE. How Americans Feel About the War With Iran, One Month In. (Compilação de pesquisas) 11 mar. 2026. Disponível em: https://time.com/article/2026/03/26/us-iran-war-poll-americans-public-opinion-approve-democrats-republicans/
CNBC NEWS. Iran’s war propaganda homes in on Trump with Lego memes. 2026. Disponível em: Iran’s war propaganda homes in on Trump with Lego memes
AMNESTY INTERNATIONAL. Iran: Deaths and injuries rise amid authorities’ renewed cycle of protest bloodshed. 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2026/01/iran-deaths-injuries-authorities-protest-bloodshed/
CEARTAS. Global deepfake statistics & impact: 2025 report. 5 dez. 2025. Disponível em: https://blog.ceartas.io/p/global-deepfake-statistics-impact.