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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

Movimento antivacina no Brasil contemporâneo: política, desinformação e desafios à saúde pública

Movimento antivacina no Brasil contemporâneo: política, desinformação e desafios à saúde pública Em 07 de julho de 2026 por GT de Saúde. Fonte: Comunicação Butantan. Por: Isabella Tardelli Maio e Giovanna Vitor. As narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas e a queda das coberturas vacinais tem gerado preocupação entre gestores públicos, profissionais da saúde e a sociedade em geral. Nesse contexto, este artigo busca compreender os fatores que contribuem para o fortalecimento do movimento antivacina, analisando sua trajetória histórica, suas formas contemporâneas de disseminação e seus impactos sobre a percepção pública acerca da vacinação. Introdução Segundo estudo realizado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV, 2025), o Brasil concentra 40% de todo o conteúdo antivacina circulado na América Latina e no Caribe. O dado é particularmente relevante diante da redução observada nas coberturas vacinais nos últimos anos e suscita reflexões sobre os fatores que têm contribuído para o aumento da hesitação vacinal e da disseminação de desinformação relacionada às vacinas. De acordo com o levantamento, o país foi responsável, na última década, pela circulação de mais de 580 mil conteúdos antivacina em comunidades online. As narrativas mobilizadas para justificar a não vacinação são diversas. O estudo identificou alegações que associam as vacinas a supostos riscos como “morte súbita”, “envenenamento”, “autismo” e até mesmo alterações no DNA humano. Em geral, tais conteúdos baseiam-se em informações retiradas de contexto, interpretações equivocadas de eventos adversos raros ou afirmações sem respaldo científico. Apesar disso, alcançam um público expressivo e contribuem para a construção de percepções negativas sobre a imunização. O mapeamento realizado pelos pesquisadores analisou mais de 81 milhões de mensagens publicadas entre 2016 e 2025 em 1.785 comunidades digitais distribuídas por dezenas de países (Silva et al, 2025). Embora a resistência às vacinas não seja um fenômeno novo, a expansão das redes sociais digitais e a crescente circulação de conteúdos desinformativos conferiram nova dimensão ao problema. No Brasil, esse processo ganhou contornos particulares durante e após a pandemia de Covid-19, quando debates científicos passaram a ser fortemente atravessados por disputas políticas e ideológicas. Nesse contexto, compreender a ascensão do movimento antivacina e seus impactos sobre a cobertura vacinal torna-se fundamental para a formulação de estratégias de comunicação em saúde e para o fortalecimento das políticas públicas de imunização. Contexto internacional: origem e reconfiguração dos movimentos antivacina Desde a Antiguidade, diferentes técnicas foram desenvolvidas para combater enfermidades e reduzir seus impactos sobre as populações. A imunização por meio da inoculação vacinal, entretanto, é uma prática relativamente recente na história da humanidade. Em linhas gerais, a vacinação consiste na introdução de um antígeno no organismo com o objetivo de estimular o sistema imunológico a produzir defesas contra um agente infeccioso específico. No caso da varíola, uma das doenças mais letais e contagiosas já registradas, observava-se que indivíduos que sobreviviam à infecção adquiriam proteção contra novas contaminações. A partir dessa constatação, surgiram práticas que buscavam induzir artificialmente essa imunidade (Krizek, 2024). Uma das experiências mais antigas de imunização foi a variolação, desenvolvida na China por volta do século X. O método consistia na utilização de material retirado das lesões de pessoas infectadas, geralmente reduzido a pó, para provocar uma forma mais branda da enfermidade e, consequentemente, gerar proteção futura. Embora arriscada pelos padrões atuais, a técnica representou um importante avanço no combate à doença (Magenta, 2020). Oito séculos mais tarde, os estudos do médico britânico Edward Jenner possibilitaram o desenvolvimento das primeiras vacinas modernas. Ao observar que trabalhadores rurais que haviam contraído cowpox (varíola bovina) pareciam estar protegidos contra a varíola humana, Jenner formulou a hipótese de que a exposição à doença bovina poderia conferir imunidade. Para testá-la, em 1796, inoculou em um menino de oito anos material proveniente de lesões de cowpox. O garoto desenvolveu apenas sintomas leves e, após sua recuperação, foi exposto ao vírus da varíola humana. Como não apresentou a doença, Jenner concluiu que a infecção prévia pela varíola bovina havia conferido proteção contra a forma mais grave da enfermidade, estabelecendo as bases da vacinação moderna (Magenta, 2020). É importante destacar que esse experimento ocorreu em um contexto histórico no qual ainda não existiam os protocolos éticos e científicos que atualmente orientam pesquisas envolvendo seres humanos. Hoje, o desenvolvimento de vacinas é submetido a rigorosas etapas de pesquisa pré-clínica e clínica, além da avaliação de comitês de ética e agências reguladoras, antes de qualquer aplicação na população. Um estudo publicado em 2024 apontou que, desde 1974, a vacinação evitou aproximadamente 154 milhões de mortes em todo o mundo, incluindo 146 milhões de mortes entre crianças menores de cinco anos, das quais 101 milhões eram bebês com menos de um ano de idade (Shattock et al, 2024). Ainda assim, observa-se o crescimento de grupos resistentes à vacinação, cujas motivações envolvem fatores religiosos, culturais, políticos e sanitários. Embora a desconfiança em relação às vacinas não seja um fenômeno recente, um marco importante do antivacinismo contemporâneo ocorreu em 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou um estudo na revista científica The Lancet sugerindo uma associação entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e o desenvolvimento do autismo em crianças (Idoeta, 2017). Posteriormente, investigações demonstraram que os resultados haviam sido manipulados e que não existiam evidências científicas que sustentassem tal relação. Em decorrência disso, o artigo foi retratado pela revista e Wakefield perdeu seu registro profissional (Idoeta, 2017). Apesar da ampla refutação científica do estudo, sua repercussão contribuiu para fortalecer discursos antivacina em diferentes países, alimentando dúvidas sobre a segurança dos imunizantes e favorecendo a disseminação de informações falsas que continuam circulando, especialmente em ambientes digitais. Embora tenha ganhado maior visibilidade nas últimas décadas em razão da globalização e da ampliação dos meios de comunicação, o movimento antivacina – também conhecido como antivax – possui origens muito anteriores ao contexto contemporâneo. As primeiras manifestações organizadas de oposição à vacinação surgiram ainda no século XIX, em resposta às políticas de imunização obrigatória implementadas por alguns governos. Na Inglaterra, a vacinação contra a varíola tornou-se obrigatória pela

O plano de saúde simplificado: a proposta de reduzir a cobertura mínima dos planos de saúde no Brasil

O plano de saúde simplificado: a proposta de reduzir a cobertura mínima dos planos de saúde no Brasil Em 15 de outubro de 2025 por GT de Saúde.  Foto: João Risi | Ministério da Saúde.   A ANS propõe a criação de uma nova modalidade de plano de saúde particular. No entanto, a proposta tem sofrido críticas de especialistas por compreenderem que a medida prejudicaria o funcionamento do SUS. Daniela Varnier Sales, Lucas Petareli Garbulho, Lucas Rodrigues da Silva e Maria Luiza Guidele   O campo da saúde tem sido muito debatido, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo, buscando formas de otimizar os sistemas e assistir mais pessoas. O sistema público de saúde brasileiro, o SUS (Sistema Universal de Saúde), destaca–se por se basear em uma concepção de sistema do tipo universal, sem qualquer tipo de barreira ao acesso, inspirado no modelo do Reino Unido, o National Health Service, em contraste com sistemas que adotam o modelo de seguro social. No modelo universal, o sistema é financiado por meio de tributação sobre a população e o acesso não é vinculado a qualquer contribuição prévia.  Além disso, o uso dos serviços de diferentes níveis de atenção (primária, secundária, terciária ou quaternária) é ordenado a partir do grau de complexidade dos casos. Segundo o Ministério da Saúde, a atenção primária tem potencial para resolver entre 80% e 90% das necessidades de saúde da população. Já no segundo modelo, o seguro social, o serviço é intermediado por  seguradoras, e o acesso se dá em geral por demanda do próprio paciente ou por orientação de seu médico, e tende a constituir um arranjo mais fragmentado e com enfoque na saúde individual.  Apesar de o Brasil contar com um sistema de saúde universal, a liberdade de exploração de serviços de saúde pela iniciativa privada também está prevista na Constituição. Além disso, o país possui um amplo mercado de intermediação de saúde por meio de planos e seguros privados, a chamada Saúde Suplementar. O setor foi regulamentado em 1998, com a promulgação da Lei nº 9.656, conhecida como Lei dos Planos de Saúde, que organizou um mercado que já existia há décadas, mas que até então operava com forte discricionariedade por parte das operadoras e sem qualquer controle em termos padrões mínimos e sustentabilidade financeira.  Para complementar a regulamentação, em 2000, foi criada a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), órgão vinculado ao Ministério da Saúde e responsável por aplicar e fiscalizar a Lei dos Planos de Saúde. Os planos podem ser contratados nas modalidades: 1) Plano individual ou familiar, adquirido diretamente pelo beneficiário, com ou sem o seu grupo familiar; 2) Plano coletivo empresarial ou por adesão. O empresarial é contratado por empresas para seus funcionários, em decorrência de vínculo empregatício. Já o plano coletivo por adesão é contratado por entidades como sindicatos, conselhos profissionais ou associações de classe, sendo oferecido a seus membros ou associados. A modalidade de contratação coletiva empresarial corresponde a cerca de 70% dos planos ativos no país (ANS, 2024). Em fevereiro de 2025, a ANS anunciou a proposta de criar um ambiente regulatório experimental — conhecido como “sandbox” regulatório — para testar os chamados “planos de saúde simplificados” por um período máximo de 24 meses, que poderia ser descontinuado a qualquer momento ou, excepcionalmente, estendido por apenas 12 meses; eles são mais baratos que os planos convencionais, mas ofereceriam cobertura apenas para consultas eletivas e exames simples; ou seja, não incluiriam atendimentos de urgência e emergência, internações, terapias ou tratamentos como psicoterapia e tratamento oncológico. A Agência defendeu a medida como uma forma de garantir e ampliar o acesso à atenção primária e secundária, alegando que apenas cerca de ¼ da população brasileira possui plano de saúde, no entanto, o fez dispensando a Análise de Impacto Regulatório (AIR), ferramenta que buscaria aferir o risco da medida. Após contestações do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), do Ministério Público, a proposta foi temporariamente suspensa (SILVA, 2025). O sandbox regulatório proposto pela Agência consistiria em um ambiente “controlado” em que operadoras poderiam criar e registrar novos planos de saúde, no formato coletivo por adesão e com limite de 30% de coparticipação, seguindo as diretrizes estabelecidas pela ANS. O período de testes seria de dois anos e, após esse prazo, o modelo seria avaliado. Entretanto, depois de muitas críticas, a proposta foi temporariamente suspensa. Segundo o agora ex-diretor presidente da Agência, a suspensão ocorreu para “”assegurar a harmonização entre as esferas administrativas e judicial” (Lopes), referência ao fato de estar em curso o julgamento de ação civil pública que busca obrigar a ANS a regular os cartões de descontos e benefícios, segmento que também disputa os consumidores das classes populares. Como mostra a reportagem de 2016, “O plano B ao SUS”, as iniciativas para o desenvolvimento de planos com cobertura reduzida são recorrentes na história da saúde suplementar. Entrevistado pela publicação, Mario Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) destaca que, em 2001, o governo FHC editou uma Medida Provisória estabelecendo planos subsegmentados, que poderiam não oferecer determinadas coberturas, a depender dos serviços disponíveis em determinada cidade ou região. Em 2013 foi discutida uma proposta que visava expandir o mercado de planos populares através de subsídios públicos. O professor ainda ressalta: “Por mais de 30 anos essas empresas atuaram sem nenhuma regra. A cobertura reduzida era a grande característica dos produtos que elas vendiam. Por exemplo, excluíam doenças infecciosas e cardíacas, órteses e próteses, fisioterapia. Os planos tinham segmentação de dias de internação, não atendiam internação em UTI até tantos dias. Esse caos total levou a uma grande reação na década de 1990 (SCHEFFER apud MATHIAS, 2016).” Outro motivo para o desenvolvimento da proposta do sandbox é permitir que o mercado explore uma alternativa aos cartões de desconto — como o Cartão de Todos ou Dr. Consulta — que, embora não sejam ilegais, não possuem regulamentação pela ANS. Segundo a Agência, cerca de 50 milhões de brasileiros utilizam o produto, sobretudo pessoas da classe C.

‘Agora Tem Especialistas’: a troca de dívidas por atendimentos e os limites da complementaridade privada no SUS

O programa entrou em vigor em agosto deste ano e é uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Fazenda, que promete “desafogar” as filas de espera para atendimentos médicos do SUS. Além de buscar a redução imediata das filas no SUS, a medida pretende enfrentar a concentração de especialistas na rede privada localizada nas regiões mais ricas do país e reforçar os princípios de universalidade e equidade que orientam o sistema de saúde brasileiro.