CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto

CAMPP (obviamente) recomenda: O Agente Secreto Em 24 de março de 2026 por CAMPP Recomenda. Por: Abraão Aguilera Entregue a nós em lindos retalhos, as memórias de um Brasil antigo (e também antiquado) operam sobre nós sentimentos desconhecidos e estridentes. As nuances da repressão do regime militar são enquadradas em “O Agente Secreto” de forma multifacetada: a violência corporativa dos Ghirotti; a repressão policial e seu cínico conluio com a imprensa local que dá vida à perna cabeluda; a negação da própria identidade. Condensadas no olhar distante de Armando Solimões, brilhantemente interpretado por Wagner Moura, tais nuances fazem com que o longa-metragem emane resistência ao apagamento da história, questionada e distorcida em nossos dias. Pedindo escusas ao distanciamento que textos dessa seção exigem — que não é tamanha, já que foi eu quem a elaborou —, listo alguns de meus encantamentos: o cameo da música de Waldik Soriano, Dona Sebastiana (e aqui não sinto necessidade de justificar o peso dessa personagem e das tantas brasileiras que replica), o cinema São Luiz e, por questões similares às que me permitem escrever esse texto, a profissão de Armando. Com os justos pesos que cada período (ou regime) merece, ser cientista é ainda hoje desafiador. Entendi, ainda na sala de cinema, que havia uma mensagem implícita naquele enredo: o buraco é mais embaixo nas carreiras que remam contra a maré. Escrevendo esse texto na iminência do Oscars 2026 — o que tira, em partes, a suspeição de que sou um mero adulador —, sinto-me parte de um movimento de reconhecimento daquilo que é nosso, brasileiro: notado felizmente lá fora, e, mais felizmente ainda, aqui dentro. O sucesso de bilheteria, as premiações, os cortes das entrevistas do elenco nas redes sociais, as matérias caça-cliques sobre o filme, enfim, chega de listas! Me desculpem pela empolgação! Assista: sinta a tristeza brasileira, a felicidade brasileira, sinta-se um brasileiro por inteiro, pois é ano de copa!
Da lama ao caos

Da Lama ao Caos Edição do CAMPP Recomenda, postado em 15 de outubro de 2025. Antony Gabriel da Silva Nesta edição do CAMPP Recomenda, o tema é o álbum “Da lama ao Caos” de Chico Science & Nação Zumbi. A genialidade e a autenticidade desses mestres são até hoje aclamadas pelo público e pela crítica. Da lama ao caos, do caos à lama: o magnânimo álbum, a arte revolucionária, o ato manifesto feito por homens-caranguejos. Inconfundível som e produção. Há quem diga que nessas terras não se sabe fazer música. Que pena! Não sabem que as figuras do passado também cantaram um dia, disso eu tenho certeza! O som autêntico originado do movimento nascido em Pernambuco no ano de 1991, chamado manguebeat, reproduz com proeza uma diversidade e riqueza sonora, juntando funk, rock, ritmos afro-brasileiros e psicodelia. Podemos ouvir isso na primeira faixa — Monólogo ao Pé do Ouvido (Vinheta) / Banditismo por uma Questão de Classe —, com um contrabaixo marcante, uma guitarra com raízes no funk, mas carregada de distorção, e uma percussão com raízes no maracatu — ritmo original de Pernambuco — que se complementam durante toda a música.Essa sonoridade marcante carrega consigo uma identidade intensa. O contexto da criação dessa obra é o que ela buscou — e busca até hoje — denunciar: a desigualdade social e a pobreza da cidade que a ONU definiu como a quarta pior cidade do mundo, Recife, Pernambuco. A cidade abriga um ecossistema de mangue rico em fauna e flora e é fonte de renda de diversos trabalhadores. O mangue é fundamental para o armazenamento de carbono, mas o descaso e o abandono ao lixo foram expostos na obra. Pela conexão com o mangue, surge um dos símbolos do Manguebeat: a antena parabólica enfiada na lama, representando a conexão do avanço tecnológico com a cultura e pobreza do mangue. O segundo símbolo é o característico caranguejo. Animal cujas várias espécies vivem no mangue, representando os trabalhadores e a cultura do local.Em suma, essa incrível obra que é tão atual nos faz refletir sobre o contexto social e como a arte pode e deve ser utilizada para trazer à tona problemas que precisam ser solucionados. Em outra faixa do disco — A cidade — fica evidente a consciência e a compreensão sobre a função da sociedade, sobre como a estratificação gera desigualdade, e como o acúmulo de riqueza concentrada nas mãos de tão poucos é danoso para praticamente todos. Não é à toa que é considerado como um dos melhores álbuns da história da música brasileira. Esse álbum, que ganhou o coração de diversas pessoas e ganha até hoje, evidencia a criatividade e expõe como o Nordeste é um grande exportador de cultura. Essa alquimia musical é recheada de informações e representatividade. Afinal, modernizar o passado é uma evolução musical. Aproveite!
The Black Saint and The Sinner Lady: uma carta de Mingus ao futuro

The Black Saint and The Sinner Lady: uma carta de Mingus ao futuro Edição do CAMPP Recomenda, postado em 28 de julho de 2025. Abraão Aguilera. Estridente como um grito e, ao mesmo tempo, introspectivo como um murmúrio, o álbum de Charles Mingus expressa os anseios da metrópole de Nova York sob a ótica de um homem negro carregado de sentimentos intrínsecos à radical rotina que o inspira e, simultaneamente, o adoece. Ocupando o hall dos álbuns mais importantes da história do jazz, The Black Saint and The Sinner Lady ambienta com maestria o cenário em que o gênero musical se realiza, ao ouvir, sente-se a cidade grande no uso de madeiras, metais e encordoamentos de nylon como quase nenhuma outra obra do gênero é capaz de fazer sentir. O jazz pulsante retrata não o glamour das grandes casas de show nova-iorquinas onde esta suíte-balé de Jazz seria reproduzida, mas as inquietações de um artista pressionado pelas suas ambições em um ambiente de segregação e violência racial. É precisamente essa energia — a raiva contra a injustiça, a dor da exclusão e o anseio apaixonado por liberdade — que Mingus canaliza e transforma na construção complexa, visceral e furiosa de The Black Saint, um testemunho sonoro do estado emocional e racial de sua vivida na confusa Nova York de 1963. A identidade urbana construída ao redor de expressões artísticas como o Jazz foi concomitante a inúmeros fenômenos sociais do Século XX, marcado pelas grandes guerras, ampla urbanização e aceleração do capitalismo globalizado junto de suas contradições. O contrabaixista e compositor, capaz de encapsular os sentimentos resultantes de algumas destas transformações em quatro faixas, logrou a intenção de elaborar um álbum que emanasse os sentimentos dos artistas que naquele período intenso e agudo clamavam por “paz, liberdade e amor” na realização de sua arte e vida. Retrato de um período, pode ser refúgio de outro! Em um momento que a extrema-direita ascende, renega a expressão artística que não é condicionada ou regida por seus valores, conhecer esta obra e orientar-se a apreciá-la é resistir à uniformização cultural de supremacistas que tratam a música erudita como superior e um caminho único a ser seguido ou retomado. Acredite: a relevante complexidade harmônica deste álbum, capaz de gerar estranhamento num primeiro momento, torna-se natural (e até confortável) nas próximas vezes ouvidas. Se divirta!