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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo Foto: Martha Muir em Middletown, Ohio. A materialidade da inteligência artificial expõe uma contradição crítica. Enquanto discursos tratam a “inteligência” como uma abstração, sua operacionalização depende de insumos físicos – dados, capacidade de processamento e infraestruturas energéticas – que reordenam relações ambientais e políticas. Para compreender essas tensões é preciso articular um olhar histórico, técnico e geopolítico, mostrando como decisões epistemológicas antigas repercutem hoje na configuração de políticas públicas de energia, uso de recursos ambientais e soberania nacional. Por: Gabriel Boscardim de Moraes, Thaís de Oliveira Monteiro, Henrique Cochi Bezerra, João Pedro Frealdo de Oliveira    Quando os estudos iniciais sobre inteligência artificial começaram a se consolidar, duas vertentes principais de pesquisa se destacavam. De um lado, estavam os proponentes da inteligência artificial simbólica – um grupo de pesquisadores que acreditava que a melhor forma de ensinar máquinas a “pensar” era por meio da lógica e da manipulação de símbolos. De outro, encontravam-se os defensores da cibernética – uma perspectiva voltada à criação de sistemas adaptativos, capazes de se auto-organizar com base na experiência. Foram os pesquisadores vinculados à vertente lógica que cunharam o termo “Inteligência Artificial”, durante o Workshop de Dartmouth, realizado em 1956, nos Estados Unidos. Na ocasião, os organizadores optaram por essa denominação justamente para distinguir-se da tradição cibernética e, em especial, evitar a participação de figuras como Norbert Wiener – matemático de grande influência, mas considerado politicamente incômodo por suas posições progressistas, críticas ao financiamento militar da pesquisa científica e defensor de uma ciência socialmente responsável. Por ironia, hoje a vertente simbólica ocupa um papel secundário no campo da IA. A hegemonia atual concentra-se no paradigma conexionista, que ganhou forma em 1958 com a criação do Perceptron, a primeira rede neural artificial. O conexionismo compartilha princípios com a cibernética, pois busca desenvolver sistemas capazes de aprender de maneira autônoma a partir de grandes volumes de dados. Assim, ao contrário da IA simbólica — que entende a mente como um sistema baseado em símbolos e regras explícitas —, o conexionismo propõe que o conhecimento e o raciocínio emergem do reconhecimento de padrões distribuídos em redes neurais artificiais, seguindo uma lógica indutiva. Dessa forma, o sentido contemporâneo do termo “inteligência artificial” acabou se aproximando justamente daquilo que os fundadores do Workshop de Dartmouth pretendiam diferenciar (Pasquinelli, 2023). Um elemento central para o treinamento das redes neurais conexionistas são os dados. Os dados são o principal insumo da inteligência artificial hegemônica, pois eles são necessários para a extração de padrões e ajuste de parâmetros que formarão os modelos.  Igualmente, o poder computacional é fundamental para a IA. Segundo um relatório dos pesquisadores de Stanford, “O processamento de treinamento para modelos de IA notáveis dobra aproximadamente a cada cinco meses, o tamanho dos conjuntos de dados para treinamento de LLMs a cada oito meses e a potência necessária para treinamento anualmente” (THE 2024 AI INDEX REPORT). Dessa forma, o paradigma conexionista converte dados e poder computacional em insumos econômicos e epistemológicos. Estudos e relatórios recentes mostram que o treinamento computacional de modelos complexos e o aprendizado profundo crescem em ritmo acelerado, empurrando para cima tanto a necessidade de hardware especializado quanto a escala da infraestrutura exigida.  A consequência imediata é a transferência da discussão para os data centers: instalações físicas compostas por milhares de servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e infraestruturas elétricas e de refrigeração pensadas para funcionamento ininterrupto. Como um dos pilares do mundo conectado, os data centers viabilizam de serviços de comunicação e financeiros a aplicações de IA generativa, o que explica sua expansão em patamares cada vez maiores. Em 2024, estimava-se a existência de mais de 11 mil unidades operacionais no globo, com forte concentração nos Estados Unidos – aproximadamente 45% do total -, seguidos por núcleos relevantes na Europa – notadamente, Alemanha, Reino Unido, França e Holanda -, China e Austrália (Statista, 2025).  Na América Latina, o Brasil vem se destacando. No ranking mundial, figura a 10ª posição em quantidade desses espaços (Statista, 2025). Levantamento realizado pelo Data Center Map aponta 195 centros atualmente em operação no país, com concentração no eixo Sudeste-Sul – São Paulo consolidado como epicentro nacional – e ampliação estratégica de polos no Nordeste e no Sul, influenciado por fatores como a proximidade de cabos submarinos, oferta de terrenos industriais a custos menores e políticas governamentais locais permissivas. O mercado global de data centers foi estimado em US$ 386,71 bilhões (2025) e prevê alcançar US$ 627,40 bilhões (2030), enquanto a potência instalada de TI sobe de 120,07 GW (2025) para 201,89 GW (2030). No Brasil, o setor totaliza cerca de 0,95 GW (2025) e projeta 1,46 GW (2030), com receitas que devem evoluir de US$ 2,95 bilhões (2025) para US$ 5,89 bilhões (2030) (Mordor Intelligence, 2025). Para dimensionar essas grandezas, observa-se que a potência de carga global estimada para 2025 (120,07 GW) equivale a 57% da capacidade instalada da matriz energética nacional no mesmo ano, segundo informe da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A simples comparação permite vislumbrar a pressão que a crescente demanda por processamento computacional pode exercer sobre os sistemas elétricos, especialmente em redes de energia de escala continental, como a brasileira. Embora compartilhem semelhanças com data centers “convencionais”, as instalações destinadas a aplicações de IA impõem requisitos mais rigorosos, como recursos de computação de altíssimo desempenho, arquiteturas de armazenamento mais rápidas, redes de baixa latência, sistemas de refrigeração especializados e, sobretudo, fontes de energia robustas e resilientes (Jonker e Gomstyn; IBM, 2025). Tais especificações elevam drasticamente o consumo de eletricidade e, em muitos casos, também o uso de água potável – podendo atingir volumes diários equivalentes ao abastecimento de cidades de 10 mil a 50 mil habitantes –, além de gerar emissões significativas de carbono (EESI, 2025). Esses fatores são centrais nos impactos socioambientais associados à expansão dessas instalações. Outro fator relevante nesse cenário é a necessidade urgente de aumentar a eficiência energética dessas instalações, com o objetivo de reduzir custos sempre que possível nos processos

A questão da política externa de Trump e o ataque ao Pix

A questão da política externa de Trump e o ataque ao Pix Em 16 de setembro de 2025 por GT de Políticas Digitais. “Donald Trump Signs The Pledge” by Michael Vadon is licensed under CC BY-SA 2.0. Henrique Cochi Bezerra, João Pedro Frealdo de Oliveira, Leonardo Ribeiro de Aragão e Miguel Said Vieira. O sucesso do Pix no Brasil despertou reação do governo Trump, que vê no sistema uma ameaça às empresas estadunidenses. Sob acusações de “práticas desleais”, os EUA pressionam o país em uma disputa que envolve dados, soberania digital e poder econômico. Em novembro de 2020, em plena pandemia de Covid-19, o Banco Central do Brasil lançou o Pix. Um sistema de pagamentos digitais sem necessidade de contato físico, gratuito, instantâneo e de fácil utilização. A ferramenta caiu rapidamente no gosto dos brasileiros e ganhou escala de forma impressionante. Em 2024, o Pix já havia se consolidado como a forma de pagamento mais utilizada no Brasil (ver gráfico 1), deixando para trás tanto o dinheiro quanto os cartões. O número de transações saltou de 9 bilhões em 2021 para 63 bilhões em 2024, movimentando 26 trilhões de reais desde sua criação. Nenhum outro país do mundo incorporou um sistema parecido tão rapidamente (THE ECONOMIST, 2025). O êxito do modelo brasileiro, entretanto, chamou a atenção em Washington. O governo dos Estados Unidos iniciou uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil, levantando a suspeita de que o Pix estaria afetando a competitividade de companhias estadunidenses. Para a administração Trump, a expansão do sistema representa uma ameaça à atuação de seus players no mercado de pagamentos. Gráfico 1 As críticas do governo dos Estados Unidos ao sistema de pagamentos brasileiro estão inseridas em um debate mais amplo que envolve big techs como Google, Meta e outras. Essas empresas mantêm suas próprias soluções de pagamento e enxergam o Pix como um potencial concorrente. Outro aspecto sensível para as gigantes de tecnologia é o tratamento de dados. Segundo a acusação, a legislação brasileira limitaria o acesso das companhias estadunidenses às informações pessoais dos usuários, afetando modelos de negócios baseados em publicidade personalizada (AMANTÉA, 2025). O ataque, contudo, é infundado: considerar a LGPD uma barreira desleal é uma leitura no mínimo inadequada e no máximo mal intencionada, já que a lei é aplicada de forma igual a empresas nacionais e estrangeiras, e aplica-se também à operação do Pix. Ressalta-se ainda que a legislação representa um instrumento legítimo de proteção de direitos fundamentais e da soberania digital, em consonância com padrões internacionais. Nesse sentido, a investigação não teria como alvo real o Pix ou a LGPD, que não configuram obstáculo para a atuação de companhias americanas no Brasil, mas refletiria sobretudo interesses políticos dos EUA (AMANTÉA, 2025). A questão, então, precisa ser considerada à luz da agenda política do governo estadunidense. Trump escancarou para quem governava quando de sua cerimônia de posse em janeiro de 2025. Cerimônia essa que contou com a participação ilustre de representantes das maiores empresas de tecnologia do mundo que contam com operações globais e sede nos EUA. Entre os nomes figuram Tim Cook (Apple), Mark Zuckerberg (META/Facebook), Jeff Bezos (Amazon) e Sam Altman (OpenAI). A cúpula do governo Trump se comprometeu em buscar fortalecer tecnologias, sistemas e ecossistemas que têm suas operações base centralizadas nos EUA, em consonância com sua proposta de campanha que enfatizava a valorização de produtos americanos e um consequente protecionismo econômico – vide as altas taxas impostas pelo seu governo aos produtos importados e que tem sido razão de embate entre Trump e o executivo e o judiciário brasileiros. Essa abordagem pode ser atribuída a um reconhecimento – não necessariamente de Trump – da transformação que tem ocorrido no estágio atual do capitalismo. A acumulação de capital, etapa fundamental do capitalismo, adapta-se a uma nova realidade: dados são ativos financeiros que podem render dividendos maiores do que a mente humana poderia imaginar. Toda coleta de dados é uma coleta de lucros potenciais. Nesse lugar, Altman exerce um papel fundamental: a OpenAI, na produção do ChatGPT e suas novas versões (atualmente baseadas no modelo GPT-5), alimenta-se de dados que vêm de todos os lugares, em sua maioria sem autorização – é significativo o caso da Folha de São Paulo, que acusa a empresa de competição desleal por usar seus conteúdos jornalísticos para treinamento desde 2022, e ainda fazê-lo burlando seu paywall, em elevada frequência (mais de 45 mil no mês de julho de 2025!). Trump parece dever favores a esses grupos, e isso tem motivado tanto a resistência a qualquer legislação de proteção de dados como uma política de fortalecimento da construção contínua de modelos de inteligência artificial que utilizarão esses dados. Além, é claro, de um forte lobby para que essas políticas também sejam enfraquecidas internacionalmente. É a partir desse contexto que Trump atua no ataque à edificação da soberania digital no Brasil por meio do Pix e de outras tecnologias de pagamento: quanto mais usuários abandonarem o uso de cartões com bandeiras gerenciadas por empresas estadunidenses, menor será o lucro dessas empresas; quanto mais brasileiros utilizarem o Pix, menor será o sucesso do Apple e do Google Pay, e menor será nossa dependência por tecnologias americanas, e menor o acesso que suas empresas terão a dados para analisar o perfil do consumidor brasileiro – dados que valem ouro. Dessa forma, o governo dos EUA atua em ataque à soberania nacional brasileira na medida em que o país, historicamente subserviente aos EUA e alinhado à sua ideologia, avança em construir não apenas tecnologias nacionais mas fortes tecnologias nacionais. Essa construção é fundamental para afastar o fantasma sempre presente da dependência da política e da economia estadunidenses. Nessa esteira, vale reconhecer que a atuação dos estadunidenses sobre o território brasileiro é resultado também de um dispositivo autocrático de retaliação comercial, a Seção 301. A Seção 301 é uma ferramenta estabelecida pela Lei de Comércio e Tarifas de 1974, e é utilizada para investigar “barreiras comerciais desleais”, permitindo que o governo imponha retaliações comerciais contra países

Conhecimento livre, políticas públicas e Gilberto Gil: “Sou um Ministro hacker”

A trajetória de Gilberto Gil, um dos grandes expoentes de nossa música popular, está entrelaçada à cultura brasileira desta última metade de século. Neste texto, partiremos de algumas intersecções entre arte, tecnologia e ativismo em sua carreira, para refletir sobre a importância do conhecimento e cultura livres no âmbito de políticas públicas.