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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

Tio Sam e as respostas do Brasil Pandeiro: uma retrospectiva

Entre o pandeiro e a diplomacia, o Brasil já não dança no mesmo compasso: a harmonia celebrada em Brasil Pandeiro deu lugar à instabilidade nas relações com os Estados Unidos diante dos avanços belicosos do presidente norte-americano.

A política climática como vetor da política externa: percepções midiáticas e direções governamentais

A política climática como vetor da política externa: percepções midiáticas e direções governamentais Em 15 de outubro de 2025 por GT de Política Externa. Foto: freepik. Entre 2014 e 2023, o Brasil viveu mudanças políticas que influenciaram sua política climática e imagem internacional. O estudo analisa como a imprensa retratou essa agenda, destacando avanços recentes e o papel estratégico do país na COP30. Pamella Galvani Bulbov, Isabella Werneck Zanon, Beatriz Carvalho, Ana Izadora Rodrigues Bezerra, Ana Carolina Silva Lima, Paulo Vitor Nascimento dos Santos. A análise realizada neste trabalho utiliza dados do período de 2014 a 2023, recorte definido com base nos limites temporais do projeto em que está inserida. Nesse intervalo, o Brasil passou por 4 mandatos presidenciais, incluindo um que ainda não foi concluído, refletindo uma diversidade de contextos políticos que influenciaram diretamente a política climática nacional e a projeção internacional do país. Nesse tema, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/2009 – PNMC) constitui o marco jurídico central, definindo objetivos, instrumentos e mecanismos de governança para mitigação e adaptação às mudanças climáticas (BRASIL, 2009). O estudo das políticas climáticas brasileiras e sua percepção pela mídia torna-se, portanto, relevante para compreender tanto as direções governamentais quanto a imagem do país no cenário global. A relevância desta pesquisa também se reflete no caráter inédito do levantamento de dados sobre a cobertura midiática da política climática nos principais jornais de circulação nacional ao longo de três mandatos presidenciais – Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro – culminando no atual governo Lula III. Essa abordagem permite analisar a evolução das percepções públicas, as rupturas e continuidades na política ambiental e o papel das iniciativas normativas recentes, como as Leis nº 14.902/2024 (Programa Mobilidade Verde e Inovação – MOVER), nº 14.904/2024 (Planos de Adaptação à Mudança do Clima) e nº 14.948/2024 (Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono) (BRASIL, 2024a, 2024b, 2024c). O caráter estratégico da política climática na política externa brasileira é evidente na participação do país na COP30, fórum multilateral essencial para negociações internacionais sobre mudanças climáticas, implementação do Acordo de Paris, metas de redução de emissões e financiamento climático. A atuação brasileira, neste contexto, demonstra a articulação entre a legislação interna e a projeção internacional, reforçando o alinhamento entre compromissos nacionais e multilaterais. O Brasil gosta de se ver como o guardião da floresta, é uma imagem que carregamos com orgulho, quase como um símbolo, desde que a Rio-92 nos colocou no centro do mundo (ACSELRAD et al., 2018). Naquele momento, não fomos apenas um palco, nós abrimos as portas para a grande e dolorosa conversa global sobre o futuro do planeta (UNFCCC, 2016). De um lado, tínhamos as nações ricas cobrando uma ambição climática que elas mesmas demoraram a ter e dificultam que seja implementada no Sul Global; de outro, essas nações gritam por justiça, por responsabilidades compartilhadas, e não individualizadas. Ser o anfitrião daquele debate foi um gesto de pura autoconfiança, uma aposta de que nós não só deveríamos, mas também poderíamos conduzir essa conversa como protagonistas do nosso próprio país. Desde então, carregamos esse fardo e privilégio: sermos guardiões de uma riqueza que pertence a todos, mas que sangra, antes de tudo, em nossas mãos (BRASIL, 2009). Essa inserção nas agendas climáticas internacionais, no entanto, é marcada por ambivalências. Se em Estocolmo (1972) o Brasil, ao lado da China, liderou a resistência do Sul global à centralidade da pauta ambiental, na Rio-92 assumiu papel ativo na criação da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, sinalizando uma mudança de discurso que vinculou meio ambiente, soberania e desenvolvimento (KIESSLING, 2018).  Durante as décadas de 1990 e 2000, a diplomacia brasileira tornou-se referência ao defender o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. A Proposta Brasileira na COP-1 (1995) foi um marco ao sugerir critérios objetivos para atribuir responsabilidades históricas, projetando o Brasil como ator-chave no regime climático (CONCEIÇÃO et al., 2019). Quando assinamos o Acordo de Paris, nossa voz foi firme (UNFCCC, 2016). Não estávamos apenas endossando um papel, estávamos ali nos comprometendo a cortar emissões de gases e a restaurar milhões de hectares de vida. O Itamaraty aprendeu a negociar financiamento e tecnologia, mantendo o foco na equidade, considerando as responsabilidades comuns, porém diferenciadas (CIRINO, 2019). Nosso discurso diplomático se construiu sobre um tripé: REDD+, financiamento climático e busca por equidade. O primeiro nos rendeu vitórias, como os mais de um bilhão de dólares que Noruega e Alemanha investiram no Fundo Amazônia (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA, 2024). Mas o financiamento internacional continua sendo uma batalha crônica: os países ricos prometeram US$ 100 bilhões por ano, porém, como mostram os dados da OCDE, a promessa nunca foi totalmente cumprida (UNFCCC, 2016). Não é só o governo que age; a sociedade civil também pressiona, pesquisa e denuncia, contribuindo para a formulação da Política Nacional sobre Mudança do Clima (BRASIL, 2009). Entretanto, como aponta Viola (2004), essa atuação sempre ocorreu em um contexto internacional adverso: a retirada dos EUA do Protocolo de Kyoto e a crescente pressão sobre emergentes como Brasil, China e Índia para assumirem compromissos de mitigação. Nesse cenário, o país oscilou entre a defesa da soberania e a necessidade de responder às pressões globais. O discurso oficial também escondia tensões internas: ao enfatizar nossas baixas emissões industriais, minimizava-se o peso das emissões decorrentes do desmatamento (KIESSLING, 2018). Hoje, a governança ambiental global envolve não apenas Estados, mas também movimentos sociais, ONGs, empresas e comunidades científicas (GARCIA; ZACARELI, 2021). Essa multiplicidade ajuda a explicar como novos temas, como bioeconomia, equidade racial e transição justa, passaram a integrar a agenda brasileira em espaços como as Climate Weeks de Nova York, Londres e São Paulo (DIPLOMATIQUE, 2024). A realização da COP30 em Belém simboliza essa trajetória: mais de 70 mil pessoas, entre jornalistas, empresários, ativistas e povos indígenas, os verdadeiros donos da terra, que se reunirão na Amazônia, com o Brasil como anfitrião (BRASIL, 2025). Esse protagonismo, porém, convive com contradições. Reduzimos emissões ao proteger a floresta, mas enfrentamos transporte urbano caótico; defendemos uma

CLARK KENT: Política Externa e Opinião Pública, juntas

Fazendo uso de uma metáfora bem conhecida — principalmente pelos fãs de super-heróis — e de uma análise sobre a cobertura midiática da relação do Brasil com Israel e Palestina no contexto do conflito em Gaza, este texto explora a relação entre política externa e opinião pública, considerando o papel exercido pela imprensa nessa interação. Se Clark Kent encontra dificuldades em manter uma postura neutra ao relatar as informações que observa enquanto Superman, faz sentido supor que com a imprensa ocorre o mesmo.