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Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas

A Virada do gov.br: como o Instagram do governo mudou o jogo nos últimos 6 meses

A virada do gov.br: como o Instagram do governo mudou o jogo nos últimos 6 meses Fonte: GovBr Por: Giulia Ribeiro, Gabriel Boscardim de Moraes O governo brasileiro adotou uma nova estratégia comunicacional nas redes digitais que tem trazido mais resultados. Entenda o que mudou. Historicamente, a esquerda brasileira sempre carregou uma desvantagem estratégica no ambiente digital. Enquanto isso, a direita consolidou uma presença estruturada nas redes, baseada em comunidades orgânicas e na produção de conteúdo viral emocionalmente orientado, com alta capacidade de mobilização (ITUASSU et al., 2024). Em contraste, os populismo de esquerda no Brasil e na Espanha, tende a operar com modelos comunicacionais mais horizontais, comunitários e menos voltados à lógica da viralização, o que gerou desvantagem competitiva em plataformas como Instagram e Facebook (Rico, Sá e Dourado, 2020). Essa assimetria tornou-se evidente a partir de 2013 e se consolidou durante o bolsonarismo, período em que as redes sociais se transformaram no principal palco de mobilização política da direita. No campo institucional, análises jornalísticas reforçam essa percepção. Como aponta o Metrópoles (2025), apesar do grande número de canais digitais, a comunicação do governo federal ainda não alcançava parcela significativa da população que dependia de informações oficiais. Tal diagnóstico reforçava a necessidade de avaliar as mudanças recentes na estratégia comunicacional do gov.br. A mudança observada nos últimos meses, no entanto, envolve não apenas elementos estilísticos, mas também estruturais. Entre maio e novembro, o gov.br intensificou investimentos em tráfego pago, ampliou o volume de publicações e ajustou sua comunicação a temas de alta circulação pública, como a nova faixa de isenção do IRPF, debates sobre políticas econômicas e repercussões internacionais decorrentes de declarações de Donald Trump. O resultado foi um crescimento expressivo de alcance, engajamento e visibilidade, sugerindo um reposicionamento discursivo relevante na disputa por narrativas no ambiente digital. Passando aos dados quantitativos, o crescimento do perfil do gov.br no Instagram é particularmente significativo. No período entre 1º de maio e 1º de novembro, o perfil conquistou mais de 1,19 milhão de seguidores, publicou mais de 806 posts, acumulou 20 milhões de curtidas, ultrapassou 1 milhão de comentários e registrou uma média de 2,529 milhões de visualizações por Reel. Esses números apontam para uma estratégia de comunicação intensiva e orientada a desempenho. Além disso, dados da Biblioteca de Anúncios da Meta revelam uma ampliação expressiva no investimento em mídia paga. Enquanto em 2024 foram gastos aproximadamente R$ 4 milhões, em 2025 os valores alcançaram R$ 31 milhões. Esse aumento de 675% reforça a hipótese de que a mudança comunicacional não é apenas estética, mas estrutural, indicando a adoção de práticas profissionais e competitivas no ecossistema das redes sociais. As 5 maiores publicações por engajamento do período de maio a novembro de 2025 A análise das cinco publicações de maior desempenho no período revela padrões claros na estratégia comunicacional do gov.br. O post 1 alcançou 475,8 mil curtidas, 15,3 mil comentários, utilizando a representação de cachorrinhos para explicar conceitos de justiça social. A escolha por animais fofos, um  formato eficaz para retenção de atenção, contribuiu para maximizar o impacto de um tema que, em condições normais, apresenta menor propensão à viralização. O post 2  obteve 414,1 mil curtidas, 26,3 mil comentários, posicionando-se como o conteúdo com maior volume conversacional entre os cinco e também o único a ser estático.  Seu foco em soberania nacional, em meio às tensões políticas produzidas por declarações de Donald Trump, indica que temas geopolíticos, quando associados a linguagem acessível, tendem a estimular participação emocional e debate público. O post 3 registrou 428 mil curtidas, 14 mil comentários, novamente utilizando animais como recurso narrativo para traduzir questões complexas relacionadas à soberania. Esse formato evidencia a capacidade dos conteúdos lúdicos de funcionarem como ponte entre políticas públicas e o repertório cotidiano dos usuários. No post 4, com 477 mil curtidas, 10,7 mil comentários, o tema central foi o incômodo gerado pelo PIX no presidente Donald Trump, articulado por meio de linguagem informal e humor leve. O conteúdo demonstra que temas ligados à economia cotidiana continuam funcionando como motores de engajamento. Por fim, o post 5 apresentou o maior número bruto de curtidas 522 mil além de 13,54 mil comentários. O vídeo utiliza gatinhos para explicar propostas de alteração no Imposto de Renda, reafirmando a eficácia de elementos de “fofura” como dispositivos de simplificação cognitiva e ampliação de alcance. Logo, dos cinco posts de maior engajamento, três recorrem a animais fofos como estratégia central para abordar temas da política nacional. Nos outros dois, predominam memes e uma linguagem descontraída, capazes de traduzir questões complexas em mensagens simples e acessíveis. Esse conjunto de práticas revela que o perfil institucional do Governo Federal tem ajustado sua comunicação ao estilo das redes sociais, que opera segundo a lógica da economia da atenção (BENTES, 2021) – na qual a viralização depende de conteúdos que capturem o interesse do público já no primeiro contato, em uma competição de diferentes estímulos perante a escassez de atenção. A transformação do gov.br no Instagram entre maio e novembro de 2025 evidencia uma virada significativa na comunicação institucional brasileira. Há indícios claros de profissionalização, maior investimento, adoção de linguagem popular e alinhamento às exigências algorítmicas das plataformas. Do ponto de vista teórico, essa mudança dialoga diretamente com a literatura que discute a histórica assimetria digital entre direita e esquerda. Estudos apontam que a direita consolidou, ao longo da última década, uma vantagem competitiva baseada em estratégias altamente performáticas de comunicação, enquanto a esquerda enfrentou dificuldades estruturais em ambientes comunicativos de alta intensidade. Os resultados apresentados ao longo do trabalho sugerem que o gov.br começa a reduzir essa distância, incorporando elementos centrais da lógica das redes contemporâneas. Assim, a virada observada não representa apenas uma mudança estética ou pontual, mas a incorporação efetiva de competências comunicacionais decisivas em um ecossistema político cada vez mais mediado por plataformas digitais, métricas de desempenho e disputa contínua por atenção. A experiência recente do gov.br indica um reposicionamento institucional estratégico, com potencial para redefinir a presença do Estado na esfera pública digital

Violência no ambiente escolar brasileiro na região do ABC

Violência no ambiente escolar brasileiro na região do ABC Fonte: Fundação ABRINQ Por: Rebeka Pinaffo do Santo, Isabelle Bocatto, Manuel Mfinda Pedro Marques, e Guilherme Cunha Paschoal 1. Introdução, Tese e Contexto Histórico-Social A violência escolar é um tema amplamente debatido e que, nos últimos anos, vem ganhando destaque no campo acadêmico, tanto no Brasil quanto no exterior. A violência escolar é um fenômeno que tem sua origem em diversos fatores que perpassam o processo educativo e o ambiente escolar. Contudo, deve ser estudada e compreendida a partir da função social da escola enquanto formadora de cidadãos e também responsável pela preparação para a vida em sociedade. Assim, entende-se a violência escolar como um fenômeno social que afeta o contexto educacional e causa múltiplos problemas no processo de ensino e aprendizagem (Nascimento, 2019). De acordo com Santos (2001), a violência possui múltiplas interpretações, podendo ser percebida como brigas que envolvem jovens, adolescentes e estudantes, muitas vezes resultando em vítimas. Compreende-se, portanto, a violência escolar como um fenômeno complexo, que se manifesta nas relações sociais estabelecidas no ambiente educacional. A perspectiva de pesquisadores como Debarbieux, Blaya (2002) e Charlot (2002) é crucial para uma compreensão mais ampla do fenômeno. A perspectiva de pesquisadores como Debarbieux, Blaya (2002) e Charlot (2002) é crucial para uma compreensão mais ampla do fenômeno. Esses autores destacam que a violência na escola pode ser analisada sob três dimensões: a violência na escola, a violência à escola e a violência da escola. A primeira é entendida como agressões físicas, simbólicas ou institucionais, além da destruição do patrimônio escolar. Já a violência na escola refere-se aos conflitos que ocorrem no ambiente escolar entre alunos e professores, afetando o cumprimento dos regimentos e das normas de conduta adotadas pelas instituições, o que acaba comprometendo a vida escolar dos estudantes. A última diz respeito às práticas institucionais e pedagógicas que podem, de forma indireta, gerar exclusão, discriminação ou desigualdade entre os alunos. Diante disso, este artigo busca compreender a problemática da violência escolar no Grande ABC, analisando seus diagnósticos, determinantes e possibilidades de construção de uma agenda prática de políticas públicas. A análise fundamenta-se nas concepções de Charlot (2002), Oliveira e Xavier (2019), Sposito (1998) e Silva (2013). Com o intuito de examinar a violência escolar como uma problemática social a partir de dados obtidos em fontes secundárias e por meio de pesquisa bibliográfica que abordam a temática, pretendemos contribuir na compreensão deste fenômeno complexo na região, além de pensar propostas que fundamentam soluções para a gestão pública. Assim, sustentamos que a violência escolar no Grande ABC decorre de fatores escolares e territoriais combinados e defendemos uma resposta intermunicipal que una protocolos de prevenção, mediação de conflitos e monitoramento contínuo, com foco na preservação do tempo pedagógico e na redução de ocorrências em curto prazo. Mais do que uma questão de eficiência administrativa, trata-se de um desafio de eficácia social: compreender a educação como instrumento capaz de alcançar objetivos coletivos, reduzir desigualdades e promover integração comunitária. A região do ABC formou-se em ciclos de urbanização e industrialização que deixaram marcas persistentes sobre desigualdades e oportunidades educacionais, como discutem Sposito (1998) e Kowarick (2009). Desde sua origem colonial como rota estratégica entre o porto de Santos e o planalto de São Paulo, até sua consolidação como polo industrial no século XX — epicentro das lutas sindicais e da redemocratização — o território construiu-se como espaço de contrastes, diversidade e mobilidade social. Com a Terceira Revolução Industrial, a automação e a digitalização reduziram a necessidade de mão de obra fabril, esvaziando o papel da escola como via direta de inserção profissional. A educação, antes associada à lógica fordista de produção e estabilidade, passou a enfrentar o desafio de formar sujeitos críticos e adaptáveis em um cenário de transformações tecnológicas e insegurança econômica. Nesse contexto, a expansão das expectativas sobre o papel da escola ocorreu sem que houvesse equalização nas condições de ensino e de vida das famílias, produzindo tensões que atravessam toda a rede de ensino. A escola deveria operar como vetor de mobilidade e integração comunitária. Quando recursos, gestão e apoio intersetorial não acompanham as demandas, emergem conflitos. Estudantes enfrentam barreiras socioeconômicas e nós, docentes e gestores, operamos sob pressão e com suporte limitado. A violência no espaço escolar resulta dessa combinação e exige resposta integrada. 2. Conceituação, Tipologias e Marcos Regulatórios Para avançar na compreensão do fenômeno, adotamos a definição de Cunha e coautores (2024), segundo a qual “violência escolar compreende os processos e manifestações de dentro do ambiente escolar ou relacionados a ele, que prejudicam a vida de estudantes, professores, famílias e comunidades, ocorrendo nas escolas, nos caminhos para a escola ou em atividades organizadas pelas instituições de ensino” (p. 18). Trata-se, portanto, de um fenômeno relacional e territorial que ultrapassa os muros da escola e conecta-se às condições de convivência e segurança da comunidade. Definição e Tipologia: Adotamos violência escolar como ocorrências que envolvem estudantes, profissionais e famílias no interior da escola, no trajeto e em atividades promovidas pela escola, inclusive no ambiente digital, conforme CUNHA e coautores. Trabalhamos com quatro tipologias úteis para política pública: Interpessoal, que inclui agressões físicas e verbais, bullying e cyberbullying; Institucional, que reúne práticas e omissões que reproduzem desigualdades; Externa, que abarca ocorrências no entorno e no trajeto; e Extrema, que envolve ataques letais premeditados. Cada tipologia demanda instrumentos específicos de prevenção e resposta. Essa diversidade de tipologias evidencia que não existe solução única para o problema. Enquanto as violências interpessoais requerem mediação de conflitos e fortalecimento de vínculos pedagógicos entre alunos e alunos com professores, a violência institucional exige revisão de práticas escolares e valorização da diversidade. Já a violência externa e a intraescolar demandam ações intersetoriais, articulando segurança pública, assistência social e políticas urbanas para garantir trajetos e ambientes mais seguros. Tais mecanismos de enfrentamento estão expostos e são amplamente discutidos em estudos e relatórios nacionais, incluindo pesquisas apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que enfatizam a necessidade de abordagens diferenciadas para

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e a estratégia de Trump

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e a estratégia de Trump Foto: fotospublicas.com Por: Bruna Drudi Lacerda No dia 29 de setembro de 2025, a Casa Branca publicou um plano proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para interromper a guerra em Gaza . Composto por 20 pontos, o plano sugere um cessar-fogo como acordo de paz entre Israel e o grupo Hamas. Contudo, o que parece ser uma manifestação de preocupação por parte do governo americano, pode não passar de estratégia de marketing político do presidente.  O conflito entre Palestina e Israel é uma disputa político-religiosa que vem sendo travada desde o século XIX, com diversas tentativas de acordos de conciliação entre os representantes das respectivas nações. Essa guerra ganhou maior destaque da mídia após o ataque do Hamas a Israel, gerando cerca de 1.200 vítimas israelenses, o que foi prontamente respondido pelas Forças de Defesa Israelenses, dando continuidade a uma série de ataques contra a população palestina, principalmente na cidade de Gaza. Estima-se que mais de 67 mil palestinos foram mortos com o desenrolar do conflito (Agência Brasil, 2025). Governos do mundo todo se solidarizaram com a situação em Gaza, apoiando um cessar-fogo definitivo e pedindo uma resolução concreta para a situação. O governo americano, principal aliado de Israel, representado pelo presidente Donald Trump, tomou as rédeas da negociação e propôs, em setembro de 2025, um plano composto por 20 pontos que tanto Israel quanto o Hamas deveriam cumprir para que houvesse um acordo de paz.  O acordo foi assinado por Trump, sem a presença de representantes do Hamas e de Israel, em cúpula realizada no Egito, juntamente com representantes do Catar e da Turquia. A iniciativa do governo americano foi amplamente divulgada e discutida em todos os veículos de informação e plataformas digitais, dando a entender que a ação de Trump em pressionar seu aliado para aceitar o acordo seja memorável e digna de um Nobel da Paz. Contudo, Trump viabilizou estrategicamente um acordo que já vem sendo proposto antes mesmo de ele assumir a presidência, utilizando seu lema de negociador para propagar e reafirmar sua imagem como líder da principal potência mundial.  As ações de Trump perante o conflito em Gaza não possuem nenhum viés de preocupação com as vidas sendo perdidas, muito menos de concretizar um possível acordo de paz. Conforme relatado pelo professor do departamento de política da PUC-SP, Reginaldo Nasser, a ideia de cessar-fogo proposta por Trump difere-se, e muito, de um acordo que proponha uma condição de justiça e direitos, e que estabeleça um território e reconhecimento internacional definitivo para o Estado da Palestina, que é a raiz do conflito (UOL, 2025).   O presidente dos Estados Unidos, ao tomar as rédeas dessa conciliação, busca tão somente apoio internacional e reconhecimento de seu soft power por meio de estratégias argumentativas, que são divulgadas facilmente através de postagens nas redes sociais, as quais viralizam e fazem com que ele ganhe apoio ao redor do mundo . Porém, pensar que o acordo proposto é um sinal de que finalmente o conflito entre Israel e Palestina irá ter fim é um grande equívoco. Trump, inclusive, vem  apresentando uma reinterpretação do Oriente Médio, propondo transformar Gaza em uma Riviera. Em vídeo feito com inteligência artificial divulgado por ele mesmo em suas redes, o território é ilustrado como um destino turístico de luxo, sendo retratado com prédios modernos, ilhas artificiais, e com uma estátua do presidente, feita de ouro, em destaque. Com essa ação, Trump propõe reimaginar o território seguindo uma estratégia argumentativa baseada no orientalismo (Said, 1978), ou seja, quando afirma que, com sua interferência, o lugar finalmente seria considerado digno de ser visto, Trump reforça estereótipos criados do oriente como um lugar exótico, atrasado e perigoso, em contraste com a imagem ocidental de progresso.  Dessa forma, embora a iniciativa de Donald Trump tenha sido apresentada como um passo importante para o fim do conflito entre Israel e Palestina, é importante entender que o acordo não será o ponto final, e muito menos que o presidente deve ser reconhecido como o responsável pela paz em Gaza. Deve-se, mais do que nunca, filtrar os discursos desse representante político , entendendo que por trás de grandes atitudes, estão intenções estratégicas que visam empoderar sua imagem como líder.  Bibliografia AFP. Os 20 pontos do plano de Trump para a paz em Gaza. UOL Notícias, 29 set. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2025/09/29/os-20-pontos-do-plano-de-trump-para-a-paz-em-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025. AGÊNCIA BRASIL. Ataque do Hamas contra Israel completa um ano; Gaza vive pesadelo. Agência Brasil, Brasília, 7 out. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-10/ataque-do-hamas-contra-israel-completa-um-ano-gaza-vive-pesadelo. Acesso em: 05 nov. 2025.  BOWEN, Jeremy. Cessar-fogo em Gaza: ação de Trump foi decisiva para acordo, mas ainda está longe de garantir processo de paz. BBC Brasil, 15 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cm2wyw17nl3o. Acesso em: 05 nov. 2025. CNN Brasil. Após ataques de Israel, Trump diz que cessar-fogo em Gaza não corre risco. CNN Brasil, 29 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/apos-ataques-de-israel-trump-diz-que-cessar-fogo-em-gaza-nao-corre-risco/. Acesso em: 05 nov. 2025. CNN Brasil. Plano de paz com 21 pontos anima Trump sobre fim da guerra em Gaza. CNN Brasil, 27 set. 2025, 11:26. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/plano-de-paz-com-21-pontos-anima-trump-sobre-fim-da-guerra-em-gaza/. Acesso em: 05 nov. 2025. COUTINHO, Leonardo. Plano de paz: a solução para Gaza seria virar um resort? Gazeta do Povo, 02 out. 2025, 13:57. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/leonardo-coutinho/plano-de-paz-a-solucao-para-gaza-seria-virar-um-resort/. Acesso em: 05 nov. 2025.  FARIA, Adriano. Acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas é assinado por Donald Trump no Egito. Rádio Senado – Conexão Senado, 14 out. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/conexao-senado/2025/10/14/acordo-de-cessar-fogo-entre-israel-e-hamas-e-assinado-por-donald-trump-no-egito. Acesso em: 05 nov. 2025. JARAMILLO, Alejandra. Casa Branca divulga “Acordo de Paz Trump” assinado em cúpula no Egito. CNN Brasil, 13 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/casa-branca-divulga-acordo-de-paz-trump-assinado-em-cupula-no-egito/. Acesso em: 05 nov. 2025. MOITA, Sandro Teixeira. O acordo de paz entre Israel e o Hamas. Observatório Militar da Praia Vermelha (OMPV), 22 out. 2025. Disponível em: https://ompv.eceme.eb.mil.br/conflitos-belicos-e-terrorismo/conflito-israel-x-hamas/801-o-acordo-de-paz-entre-israel-e-o-hamas. Acesso em: 05 nov. 2025. NASSER, Reginaldo. Cessar-fogo não é paz, diz Reginaldo Nasser sobre Gaza. UOL Notícias, 10 out. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/10/cessar-fogo-nao-e-paz-diz-reginaldo-nasser-sobre-gaza.htm. Acesso em: 05 nov. 2025. TOKARNIA, Mariana. Guerra na Faixa

Impacto das redes sociais nas Políticas Públicas: estudo de caso Felca

Impacto das redes sociais nas Políticas Públicas: estudo de caso Felca foto: revistaquem.globo.com Por: Isabella Werneck Zanon  e Paulo Vitor Nascimento dos Santos Entenda como o vídeo do Youtuber Felipe Bressanim repercutiu no debate público online e como a partir disso surgiu uma lei. A manhã do dia 06 de agosto de 2025 começou incômoda. Foi neste dia que nas redes sociais não se falava em outra coisa: Adultização. Palavra que ganhou a boca e as redes do povo brasileiro devido a um vídeo homônimo publicado por Felipe “Felca” Bressanim Pereira, youtuber brasileiro que em cerca de 50 minutos de vídeo destrincha o cenário de vulnerabilidade que se encontram menores de idade nas redes sociais.  Em formato informativo e em objetivo de denúncia, o criador de conteúdo para internet inicia seu vídeo com exemplos leves de adultização e no decorrer evidencia de forma simulada como agem os predadores sexuais infantis e seus códigos para compra e venda de material pornográfico ilícito. Ainda, o autor do vídeo traz como base uma especialista em infância, adolescência e parentalidade, Andressa Chamat, para explicar à população os impactos da exposição precoce e não supervisionada à internet, como o prejudicamento do discernimento entre público e privado ao longo do seu desenvolvimento desencadeando dezenas de problemas na formação do indivíduo (Felca, 2025).  O tema de adultização, logo, abuso infantil, acendeu um alerta na populção e ganhou ainda mais projeção quando Felca surgiu na maior emissora de TV do país, no principal veículo de imprensa dominical, “Fantástico”, na mesma semana de publicação do vídeo. Até o momento da publicação deste texto, o vídeo conta com pouco mais de 50 milhões de visualizações e fura a bolha de público, atingindo todas as faixas etárias e diferentes espectros políticos. O Relatório nº 103 do Monitor do Debate Público (MDP/LEMEP), que analisou a percepção da sociedade sobre o vídeo “Adultização” de Felca, revelou um consenso entre os diferentes grupos políticos monitorados em relação à atribuição de responsabilidade pela exploração e adultização infantil nas redes sociais. A opinião pública tendeu a identificar os pais e responsáveis como os principais culpados pelo fenômeno, sendo vistos como negligentes ou, em alguns casos, coniventes com a exposição dos filhos. Essa visão foi dominante em todos os segmentos analisados, incluindo Bolsonaristas Convictos, Bolsonaristas Moderados, Eleitores Flutuantes, Lulodescontentes, Lulistas e o grupo virtual de evangélicos (LEMEP, 2025). Embora a responsabilidade inicial pelo caso recaísse sobre os pais, grupos como os Lulodescontentes e os Lulistas ampliaram o debate ao defender que a proteção infantil exige uma ação compartilhada entre famílias, plataformas digitais e governo, especialmente por meio de fiscalização e de leis mais rígidas. Paralelamente, o relatório identificou uma mobilização rápida de figuras da direita e da extrema-direita que buscaram politizar a denúncia de Felca, interpretando-a como uma estratégia da esquerda para justificar a regulamentação das redes sociais, vista por esses setores como ameaça à liberdade de expressão. Nesse movimento, essa vertente passou a acusar o governo e a esquerda de hipocrisia, defendendo que a proteção infantil é responsabilidade exclusiva da família e não deve envolver controle estatal (LEMEP, 2025). A denúncia de Felca é a prova viva de como a internet, que muitas vezes é vista como um espaço superficial, pode ser o epicentro de mudanças sociais e políticas reais, e tudo começou com um vídeo, que decidiu usar o canal do Youtube não para uma trend boba, mas para expor um problema seríssimo que estava acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, a chamada “adultização” de crianças em plataformas como o TikTok. O vídeo dele foi uma explosão, e não foi só sobre apontar o dedo, foi sobre questionar o sistema de funcionamento das plataformas, sobre como os algoritmos e a busca incessante por engajamento estavam incentivando a exposição de menores em situações e com roupas sugestivas, simulando comportamentos de adultos de uma forma claramente sexualizada, e essa crítica ultrapassou  as barreiras da internet e se tornando, quase que da noite para o dia, a principal pauta de discussão pública no país. E o mais incrível é que essa discussão não ficou só nos trending topics, ela se converteu em ação cívica quase imediatamente, num fenômeno que a imprensa rapidamente apelidou de “Efeito Felca”, porque o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou um aumento surreal, de mais de 500%, no número de denúncias de exploração sexual infantil online recebidas pelo Disque 100 (APÓS FELCA…, 2025), provando que a sociedade estava assistindo e, mais importante, estava indignada o suficiente para agir. Essa indignação coletiva precisava de um foco, e ela rapidamente se direcionou para casos que já estavam no radar, mas que ganharam uma visibilidade imensa, como o do influenciador Hytalo Santos, que já era investigado pelo Ministério Público da Paraíba desde 2024 por suspeitas de explorar menores em seus conteúdos (ENTENDA O CASO…, 2025), mas foi a pressão gerada pelo debate nacional que transformou essa investigação em um caso emblemático da urgência do problema. A consequência dessa pressão foi drástica e culminou na prisão de Hytalo Santos e de seu marido em São Paulo em agosto de 2025, uma operação complexa que apurava crimes gravíssimos, incluindo tráfico humano e exploração sexual infantil (HYTALO SANTOS…, 2025), e essa ação do Judiciário foi um sinal claro de que a impunidade percebida nas redes sociais estava com os dias contados, mostrando que o debate online teve um peso real na aceleração de processos judiciais. Enquanto o Judiciário avançava, o Poder Legislativo em Brasília, frequentemente distante do ritmo da internet, foi pressionado a agir rapidamente, levando o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, a prometer prioridade máxima para projetos relacionados ao tema (YOUTUBER VIRALIZA…, 2025). A pressão social resultou em uma onda de propostas legislativas, muitas apelidadas informalmente de “Lei Felca” no Congresso (DA INTERNET…, 2025), e até projetos que estavam parados, como o PL 785/25, que previa autorização judicial para que crianças atuassem como influenciadoras digitais, voltaram ao centro do debate (PROJETO TORNA…, 2025). Essa mobilização culminou na sanção da Lei nº 15.211, em 17

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo

Inteligência Artificial, Data centers e o fim do mundo Foto: Martha Muir em Middletown, Ohio. A materialidade da inteligência artificial expõe uma contradição crítica. Enquanto discursos tratam a “inteligência” como uma abstração, sua operacionalização depende de insumos físicos – dados, capacidade de processamento e infraestruturas energéticas – que reordenam relações ambientais e políticas. Para compreender essas tensões é preciso articular um olhar histórico, técnico e geopolítico, mostrando como decisões epistemológicas antigas repercutem hoje na configuração de políticas públicas de energia, uso de recursos ambientais e soberania nacional. Por: Gabriel Boscardim de Moraes, Thaís de Oliveira Monteiro, Henrique Cochi Bezerra, João Pedro Frealdo de Oliveira    Quando os estudos iniciais sobre inteligência artificial começaram a se consolidar, duas vertentes principais de pesquisa se destacavam. De um lado, estavam os proponentes da inteligência artificial simbólica – um grupo de pesquisadores que acreditava que a melhor forma de ensinar máquinas a “pensar” era por meio da lógica e da manipulação de símbolos. De outro, encontravam-se os defensores da cibernética – uma perspectiva voltada à criação de sistemas adaptativos, capazes de se auto-organizar com base na experiência. Foram os pesquisadores vinculados à vertente lógica que cunharam o termo “Inteligência Artificial”, durante o Workshop de Dartmouth, realizado em 1956, nos Estados Unidos. Na ocasião, os organizadores optaram por essa denominação justamente para distinguir-se da tradição cibernética e, em especial, evitar a participação de figuras como Norbert Wiener – matemático de grande influência, mas considerado politicamente incômodo por suas posições progressistas, críticas ao financiamento militar da pesquisa científica e defensor de uma ciência socialmente responsável. Por ironia, hoje a vertente simbólica ocupa um papel secundário no campo da IA. A hegemonia atual concentra-se no paradigma conexionista, que ganhou forma em 1958 com a criação do Perceptron, a primeira rede neural artificial. O conexionismo compartilha princípios com a cibernética, pois busca desenvolver sistemas capazes de aprender de maneira autônoma a partir de grandes volumes de dados. Assim, ao contrário da IA simbólica — que entende a mente como um sistema baseado em símbolos e regras explícitas —, o conexionismo propõe que o conhecimento e o raciocínio emergem do reconhecimento de padrões distribuídos em redes neurais artificiais, seguindo uma lógica indutiva. Dessa forma, o sentido contemporâneo do termo “inteligência artificial” acabou se aproximando justamente daquilo que os fundadores do Workshop de Dartmouth pretendiam diferenciar (Pasquinelli, 2023). Um elemento central para o treinamento das redes neurais conexionistas são os dados. Os dados são o principal insumo da inteligência artificial hegemônica, pois eles são necessários para a extração de padrões e ajuste de parâmetros que formarão os modelos.  Igualmente, o poder computacional é fundamental para a IA. Segundo um relatório dos pesquisadores de Stanford, “O processamento de treinamento para modelos de IA notáveis dobra aproximadamente a cada cinco meses, o tamanho dos conjuntos de dados para treinamento de LLMs a cada oito meses e a potência necessária para treinamento anualmente” (THE 2024 AI INDEX REPORT). Dessa forma, o paradigma conexionista converte dados e poder computacional em insumos econômicos e epistemológicos. Estudos e relatórios recentes mostram que o treinamento computacional de modelos complexos e o aprendizado profundo crescem em ritmo acelerado, empurrando para cima tanto a necessidade de hardware especializado quanto a escala da infraestrutura exigida.  A consequência imediata é a transferência da discussão para os data centers: instalações físicas compostas por milhares de servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e infraestruturas elétricas e de refrigeração pensadas para funcionamento ininterrupto. Como um dos pilares do mundo conectado, os data centers viabilizam de serviços de comunicação e financeiros a aplicações de IA generativa, o que explica sua expansão em patamares cada vez maiores. Em 2024, estimava-se a existência de mais de 11 mil unidades operacionais no globo, com forte concentração nos Estados Unidos – aproximadamente 45% do total -, seguidos por núcleos relevantes na Europa – notadamente, Alemanha, Reino Unido, França e Holanda -, China e Austrália (Statista, 2025).  Na América Latina, o Brasil vem se destacando. No ranking mundial, figura a 10ª posição em quantidade desses espaços (Statista, 2025). Levantamento realizado pelo Data Center Map aponta 195 centros atualmente em operação no país, com concentração no eixo Sudeste-Sul – São Paulo consolidado como epicentro nacional – e ampliação estratégica de polos no Nordeste e no Sul, influenciado por fatores como a proximidade de cabos submarinos, oferta de terrenos industriais a custos menores e políticas governamentais locais permissivas. O mercado global de data centers foi estimado em US$ 386,71 bilhões (2025) e prevê alcançar US$ 627,40 bilhões (2030), enquanto a potência instalada de TI sobe de 120,07 GW (2025) para 201,89 GW (2030). No Brasil, o setor totaliza cerca de 0,95 GW (2025) e projeta 1,46 GW (2030), com receitas que devem evoluir de US$ 2,95 bilhões (2025) para US$ 5,89 bilhões (2030) (Mordor Intelligence, 2025). Para dimensionar essas grandezas, observa-se que a potência de carga global estimada para 2025 (120,07 GW) equivale a 57% da capacidade instalada da matriz energética nacional no mesmo ano, segundo informe da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A simples comparação permite vislumbrar a pressão que a crescente demanda por processamento computacional pode exercer sobre os sistemas elétricos, especialmente em redes de energia de escala continental, como a brasileira. Embora compartilhem semelhanças com data centers “convencionais”, as instalações destinadas a aplicações de IA impõem requisitos mais rigorosos, como recursos de computação de altíssimo desempenho, arquiteturas de armazenamento mais rápidas, redes de baixa latência, sistemas de refrigeração especializados e, sobretudo, fontes de energia robustas e resilientes (Jonker e Gomstyn; IBM, 2025). Tais especificações elevam drasticamente o consumo de eletricidade e, em muitos casos, também o uso de água potável – podendo atingir volumes diários equivalentes ao abastecimento de cidades de 10 mil a 50 mil habitantes –, além de gerar emissões significativas de carbono (EESI, 2025). Esses fatores são centrais nos impactos socioambientais associados à expansão dessas instalações. Outro fator relevante nesse cenário é a necessidade urgente de aumentar a eficiência energética dessas instalações, com o objetivo de reduzir custos sempre que possível nos processos

A estética da submissão: tradwives e a performance da feminilidade conservadora

A estética da submissão: tradwives e a performance da feminilidade conservadora  Fonte: Estevão, 2025. O movimento das tradwives tem ganhado visibilidade nas redes sociais ao dialogar com projetos conservadores que reforçam papéis de gênero rígidos. Mais do que uma escolha pessoal, esse fenômeno simboliza a naturalização de desigualdades históricas ao exaltar a dependência e submissão feminina como ideais a serem seguidos. Em vista disso, é preciso compreender como modismos conservadores moldam percepções sociais e influenciam a vida das mulheres. O movimento das tradwives (traditional wives, ou mulheres tradicionais) tem ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, onde influenciadoras compartilham rotinas centradas na dedicação ao marido, à maternidade e ao lar. Mais do que uma escolha de estilo de vida, o fenômeno resgata um passado marcado pela rígida divisão de papéis de gênero e pela valorização da família nuclear como modelo único. A performance, construída por meio de discursos, conselhos de “feminilidade” e uma estética que associa obediência à elegância, traduz uma dinâmica cultural que se conecta diretamente ao avanço do conservadorismo contemporâneo. A ascensão desse fenômeno não se explica apenas pelo apelo “nostálgico”, mas pelo diálogo direto com projetos políticos ultraconservadores em diversas partes do mundo. Partidos e lideranças da extrema direita têm investido na retórica da “restauração da ordem” e na defesa dos “valores tradicionais”, apresentando-se como barreiras às políticas de equidade de gênero e à autonomia reprodutiva. Nesse contexto, as tradwives operam como peças de legitimação simbólica: suavizam os mecanismos de ação do conservadorismo ao transformá-los em um ideal de vida doméstico, feminino e aparentemente inofensivo. É nesse contexto que a imagem de Ivanka Trump, durante a posse de Donald Trump em 20 de janeiro de 2025, ganhou enorme repercussão. Vestida com um conjunto monocromático verde e apresentando-se de forma sóbria, Ivanka evocou comparações imediatas com a estética de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), obra distópica de Margaret Atwood que retrata um regime teocrático e totalitário nos Estados Unidos. A semelhança com as Esposas – mulheres casadas com os Comandantes, que sustentam e legitimam o sistema de exploração das Aias – foi vista como um gesto carregado de simbolismo político. Como destacou Bleiker (2018), as imagens visuais são performances que circulam politicamente e, por isso, tornam-se importantes instrumentos na “guerra das imagens”, sendo capazes de moldar opiniões, percepções e influenciar debates. Assim, a fotografia de Ivanka não pode ser compreendida como uma escolha casual, mas como parte de uma performance que traduz a estética da feminilidade conservadora. Sua presença encarna o mesmo espírito que sustenta o movimento das tradwives: a legitimação de papéis de gênero rígidos, ocultada pelo discurso da elegância e disciplina. Ao mesmo tempo em que desperta admiração em setores conservadores, essa estética também funciona como instrumento de naturalização de retrocessos em relação aos direitos das mulheres. O atual avanço do movimento dialoga diretamente com o momento pelo qual países do mundo vivem, em especial o Brasil, com o avanço de diversas pautas conservadoras, e por vezes retrógradas, que parecem querer suprimir direitos conquistados por minorias durante décadas de luta (Fukushima; Ferraz, 2021; Nunes, 2025).   Um dos argumentos para o avanço desse fenômeno é a percepção de que essas mulheres escolheram a família ao invés do feminismo. No entanto, essa ideia não encontra respaldo na realidade, tendo em vista que, como  prega Beauvoir (2020), o feminismo busca libertar a mulher das condições sociais e simbólicas que a colocam em posição de subordinação e subalternização. Assim, o feminismo não impõe um modelo único de vida, mas defende a autonomia da mulher para decidir o que deseja para si, seja construir uma carreira, dedicar-se à família ou conciliar ambas as escolhas, até porque, trabalho doméstico também é  uma forma legítima de trabalho (Federici, 2019).  Ademais, outro ponto relevante é que, no cenário econômico-social atual, optar por não trabalhar fora é uma realidade acessível a poucas mulheres, devido principalmente às limitações financeiras. Segundo dados do IBGE, a renda média mensal da população brasileira é de R$ 3.057,00 (três mil e cinquenta e sete reais), sendo que as mulheres ganham, em média, 20,9% a menos que os homens. Entre as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais acentuada: elas recebem menos do que os homens, independentemente da raça ou etnia, e também menos que as mulheres brancas, com uma diferença que pode chegar a 110%.   O Brasil possui uma população majoritariamente feminina, na qual a maioria das mulheres é negra e está – historicamente – alocada em sub-empregos, trabalhos informais ou trabalhos formais de baixa remuneração (Gonzalez, 1984); logo, não trabalhar fora, para parte significativa desse grupo, nunca foi uma opção. Dizer, mesmo que indiretamente, que essas mulheres se dedicam menos à família, por não terem a possibilidade de se concentrar exclusivamente nela, revela uma visão limitada da realidade social e histórica, tendo em vista que muitas dessas mulheres são as responsáveis por prover e manter a casa e a família, evidenciando, assim, como o movimento tradwife é nichado e voltado para segmentos específicos de mulheres com condições socioeconômicas privilegiadas.    Outro ponto importante, ao optar por esse estilo de vida, é a questão da dependência financeira que essa escolha pode acarretar. Por reforçar uma ideia patriarcal, de que o homem é o único responsável por prover a casa, o poder e o controle econômico ficam concentrados no marido, o que pode colocar a mulher em posição de submissão por não deter autonomia financeira, já que a subordinação econômica é uma forma estrutural de opressão feminina, limitando liberdade e escolhas de vida (Federici, 2021) Além disso, em um país como o Brasil, em que os casos de feminicídio e violência contra a mulher, infelizmente, aumentam a cada dia, a hipossuficiência financeira só seria um elemento dificultador para que a mulher possa romper com situações de abuso e agressão. Diante disso, é importante refletir sobre como modismos que evocam um modo de vida conservador impactam a sociedade, especialmente em relação ao gênero, política e cultura. Estilos de vida como o das tradwifes são apresentados

O Fim da Escala 6×1: A Força do Movimento “Vida Além do Trabalho”

O Fim da Escala 6×1: A Força do Movimento “Vida Além do Trabalho”  Foto: Davi Pinheiro/ Cartaz em manifestação do movimento Vida Além do Trabalho: pelo fim da escala 6×1  Ana Clara Luduvico, Gisele Kobayashi e Giulia Ribeiro A proposta de alteração da escala de trabalho 6×1 vem sendo debatida em mobilizações online e presenciais. No Brasil, é vista como um modelo insustentável, exploratório e causador de adoecimento da classe trabalhadora, embora seja legalmente amparada pela Constituição Federal. O debate ganhou significativa força nas mídias sociais através de relatos de exaustão e da falta de tempo para a vida pessoal, o que impulsionou uma luta coletiva com o impulsionamento de movimentos como o Vida Além do Trabalho (VAT), popularizado pelo influenciador Rick Azevedo. Essa mobilização digital resultou na apresentação de propostas de alteração legislativa, como a PEC 8/2025, de autoria da Deputada Federal Erika Hilton, que visa reduzir a jornada para 36 horas semanais, possibilitando a escala 4×3, e a PEC 231/1995, do Senador Paulo Paim, que propõe a redução para 40 horas semanais sem perda salarial. Constata-se um forte apoio popular ao fim da 6×1, com aprovação de grande parte dos brasileiros, unindo a sociedade em torno da causa, a qual a Deputada Erika Hilton ativamente promove nas redes sociais, rotulando a escala como “desumana” e obtendo grande visibilidade. Apesar disso, opositores, como o presidente da Câmara, levantam preocupações sobre as possíveis consequências negativas da medida para a economia e os empregadores. No entanto, o movimento reflete uma mudança de paradigma social, onde o bem-estar e o tempo de não-trabalho superam a centralidade do emprego. Em suma, a discussão sobre o fim da escala 6×1 evoluiu para uma pauta de dignidade e saúde pública, fortalecida pela conectividade social e pelo apoio político, demandando um regime de trabalho mais humano e digno no país. A escala de trabalho 6×1, caracterizada pela imposição de seis dias trabalhados e apenas um dia de descanso, é avaliada como um modelo insustentável no contexto brasileiro. Embora seja observada em diversos setores da economia, principalmente no comércio e em serviços, essa organização é percebida como um sistema que promove a superexploração e que está intrinsecamente ligado à precarização e ao adoecimento da classe trabalhadora. O debate sobre o fim dessa escala ganhou significativa visibilidade nas mídias sociais, onde se constata um volume de relatos que evidenciam a exaustão dos trabalhadores, bem como a falta de tempo para atividades essenciais, como o cuidado com a saúde, a qualificação profissional e o lazer. Tais discussões indicam uma transformação de uma pauta individual para uma luta coletiva, impulsionada, em parte, por movimentos como o Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou notoriedade após o relato do influenciador digital Rick Azevedo (atual vereador no Rio de Janeiro) no TikTok e rapidamente angariou milhões de apoiadores. Essa mobilização digital – “que utiliza processos personalizados e se organiza pelas tecnologias sociais” – se alinha à lógica da ação conectiva (connective action). Segundo Bennett e Segerberg (2012 apud Babo), essa ação é um modelo alternativo que surge quando os laços de grupos tradicionais – sindicatos e partidos – são substituídos por fluxos de larga escala nas mídias sociais. A Constituição Federal de 1988 permite a adoção da escala 6×1, uma vez que respeita o limite máximo de 44 horas semanais de trabalho. No entanto, a crescente discussão sobre sua inadequação gerou o desenvolvimento de propostas de alteração legislativa. Atualmente, a redução da jornada está formalizada por meio de duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC): a PEC 8/2025, de autoria da Deputada Federal Erika Hilton (PSOL-SP), a qual propõe a redução da jornada semanal para 36 horas, viabilizando a escala 4×3 (quatro dias de trabalho para três de descanso) e a PEC 231/1995, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), a qual propõe a criação de um Novo Código do Trabalho, com foco na redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário. A pesquisa da Nexus revelou que 67% dos conteúdos analisados nas redes sociais foram favoráveis à PEC, com o tema unindo a sociedade “independentemente de sua posição político partidária”. Este forte endosso popular é corroborado pela opinião pública: 65% dos brasileiros são favoráveis ao fim da 6×1, sendo o apoio ainda maior entre os jovens de 16 a 24 anos (76%) e os desempregados (73%).  A deputada federal Erika Hilton que assumiu a frente da causa teve sua estratégia de comunicação alinhada à dinâmica das redes: a parlamentar engajou-se ativamente no X (antigo Twitter) rotulando a escala 6×1 como “desumana” e incentivando os usuários a cobrarem o apoio de parlamentares pela aprovação da PEC. Essa sinergia entre o movimento Vida Além do Trabalho e a ação política resultou em ganhos concretos de visibilidade: Erika Hilton chegou a ganhar cerca de 24 mil seguidores em uma semana devido ao tema, com um único post sobre a pauta alcançando 404 mil interações. Contudo, mesmo com as melhorias que a redução da jornada de trabalho promoveria às condições de vida da ampla maioria dos trabalhadores, os opositores alegam que esse novo regime teria consequências negativas para a economia e para os empregadores brasileiros. Segundo Hugo Motta (presidente da Câmara dos Deputados), a medida pode não ser viável, além de privilegiar apenas um lado do debate; o que por consequência atrasa e dificulta o processo de tramitação da PEC. Esse apoio popular à PEC faz referência a tendência proposta por Gorz (1995) em “Saindo da sociedade do trabalho assalariado”, em que há uma inversão de valores sobre o trabalho: o trabalhador deixa de vê-lo como o principal fator de realização individual, desejando uma redução do tempo de trabalho e a apropriação individual e coletiva do tempo. Desse modo, a insatisfação se exprimiu na assinatura de abaixo-assinado online contra a escala 6×1 e as articulações pelas redes sociais a favor da redução da jornada, propondo o aumento do tempo livre. Devido à grande mobilização, também foi organizado um plebiscito popular, sendo que uma das propostas é pelo fim dessa escala sem

Reconstruindo direitos: a importância da ampliação do acesso à cirurgia reparadora de mama e seus desdobramentos para o Grande ABC

Reconstruindo direitos: a importância da ampliação do acesso à cirurgia reparadora de mama e seus desdobramentos para o Grande ABC Foto: Senado Federal. Disponível em:https://sl1nk.com/xeZZj Nova lei sancionada amplia o acesso à cirurgia reparadora de mama para além de casos relacionados a câncer. A ampliação deve criar novas demandas na Região do ABC Gabriella Rufino Andreucci, Guilherme Cunha Paschoal, Lucas Petareli Garbulho e Rafaella Sampaio da Silva Sancionada pelo presidente Lula em 17 de julho, a Lei nº 15.171/2025 altera a Lei nº 9.797/1999 e a Lei nº 9.656/1998, buscando “ampliar o direito das mulheres à cirurgia plástica reparadora da mama em casos de mutilação total ou parcial”. A medida também inclui alterações a fim de garantir acompanhamento psicológico e multidisciplinar à mulher que tenha sofrido mutilação total ou parcial do órgão. A nova lei entra em vigor 120 dias após sua publicação oficial, que ocorreu já no dia 18 de julho (BRASIL, 2025). Em sua redação original, o Art. 1° da Lei 9.797/99, que trata diretamente do direito à reconstrução mamária no Brasil, sancionada em 1999 durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, garantia o direito apenas “[Às] mulheres que sofrerem mutilação total ou parcial de mama, decorrente de utilização de técnica de tratamento de câncer”. No entanto, com a sanção da nova Lei, esse texto é ampliado para garantir o direito a todas “As mulheres que sofrerem mutilação total ou parcial da mama, independentemente da causa, (…) respeitada a autonomia da mulher para, plenamente esclarecida, decidir livremente pela execução do procedimento”, bem como a ampliação também do direito assegurado de acompanhamento psicológico e multidisciplinar dessas mulheres. Na prática, esse movimento de inclusão de casos não decorrentes apenas de intervenções cirúrgicas ou técnicas relacionadas ao tratamento de câncer possibilita que milhares de mulheres antes não contempladas possam reivindicar o procedimento. A expansão trazida pela Lei nº 15.171/2025, no entanto, esbarra em problemas já documentados que limitam ou atrasam o acesso ao procedimento, que conta com longas filas. Em nota, a IFF/Fiocruz, que também contribuiu para a nova lei, reafirma a existência das filas, bem como a importância de uma atuação conjunta de gestores de saúde para viabilizar o procedimento e tornar de conhecimento público a ampliação ao seu direito (FIOCRUZ, 2025). Essa reflexão trazida pela Fiocruz, no entanto, refere-se ao território nacional como um todo; desse modo, vale, portanto, um olhar mais restrito, voltado à região do Grande ABC, a fim de entender o panorama regional com maior profundidade, a fim de entender seus desafios e conquistas específicas. A partir da análise dos indicadores disponibilizados pelo dataSUS entre 2020 e o primeiro semestre de 2025, fica demonstrado que a região do Grande ABC já apresentava uma demanda expressiva por procedimentos de reconstrução mamária antes da sanção da Lei nº 15.171/2025. Nesse período, foram realizados 1.535 procedimentos de Plástica Mamária Feminina Não Estética e 231 reconstruções diretamente relacionadas ao câncer de mama, sendo 172 Plásticas Mamárias Reconstrutivas Pós-Mastectomia com Implante de Prótese e 59 Reconstruções Mamárias Pós-Mastectomia Total. Assim, esses números totalizam 1.766 cirurgias de caráter reparador ou reconstrutivo, de forma a evidenciar que o sistema público da região já atendia uma demanda significativa de mulheres, ainda que o direito estivesse restrito a casos oncológicos.  Além disso, foram registrados 111 procedimentos de retirada de prótese mamária sem substituição e 60 com substituição no mesmo ato cirúrgico, demonstrando a complexidade e continuidade dos cuidados necessários a essas pacientes, envolvendo revisões cirúrgicas e acompanhamento especializado. Frente aos indicadores apresentados, o mapeamento hospitalar da região, contudo, demonstra que embora existam unidades de referência habilitadas para realizar a reconstrução mamária, a distribuição geográfica desses serviços é desigual.  O processo para acessar os procedimentos segue o fluxo do SUS, devendo a paciente ser encaminhada por médico da atenção primária ou por equipe de oncologia para avaliação especializada, sendo incluída em fila de espera de acordo com a disponibilidade cirúrgica. Na prática, porém, o tempo de espera pode ultrapassar 4 a 5 anos, segundo dados nacionais do Instituto Oncoguia, o que indica um descompasso entre o direito formal e o acesso real, devendo, a partir da promulgação da nova lei, haver esforços para que haja o fortalecimento da rede hospitalar e da regulação regional de leitos cirúrgicos para atender à nova demanda.  A sanção da Lei nº 15.171/2025 amplia de forma significativa o público atendido pelo SUS, ao passo que inclui novos grupos de mulheres com direito de acesso ao procedimento de reconstrução mamária para além das que acessam o serviço em decorrência do câncer mamário. Esses grupos podem ser compostos de mulheres que sofreram mutilação parcial ou total da mama em decorrência neoplasias benignos, que são tumores que não possuem a capacidade de afetar outros órgãos, assim como pacientes submetidos à mastectomias não oncológicas, que podem abrigar o processo de retirada das mamas de modo preventivo (mastectomia preventiva), assim como as mastectomias para transição de gênero. Na região do Grande ABC, os dados do DataSUS entre 2020 e o primeiro semestre de 2025 identificam que há um contingente relevante de mulheres diagnosticadas com transtornos da mama e neoplasias benignas, grupos que passam a ser potencialmente beneficiados pela nova legislação, evidenciando a funcionalidade da ampliação de acesso. Nesse período, foram registrados 1.923 casos de transtornos da mama e 25 casos de neoplasias benignas, totalizando quase 2 mil atendimentos relacionados a condições que, até então, não eram contempladas pelo direito à reconstrução mamária. Embora nem todos os casos de transtornos ou neoplasias benignas resultem em mutilações que exijam reconstrução, esses números demonstram um potencial expressivo de nova demanda a partir da entrada em vigor da lei. Ainda que esbarre em dificuldades, como supracitado, a distribuição geográfica desigual de unidades de referência que prestam o serviço, além da dificuldade encontrada por pacientes no que tange às filas de espera do serviço de saúde pública, a incorporação dessas mulheres ao rol de beneficiárias do SUS evidencia o caráter inclusivo e reparador da medida, que busca garantir o direito à integridade corporal e à autoestima independentemente da causa da

Visita técnica à Controladoria Geral do Município de São Paulo

Visita técnica à Controladoria Geral do Município de São Paulo Publicado em 16 de outubro de 2025, por Rebeka Pinaffo. Foto: CGM-SP Nos últimos dias, tivemos a oportunidade de visitar a Controladoria Geral do Município de São Paulo (CGM) junto com o CAMPP. Desde o momento em que chegamos, fomos recebidos com uma atenção e uma receptividade que me marcaram muito. Primeiro fomos recebidos por um representante de comunicação que se mostrou muito interessado pelo projeto querendo entender mais sobre o que estamos fazendo e produzindo, em seguida sentamos em uma mesa com diversos coordenadores e representantes de diferentes áreas da secretaria, e a conversa acabou se transformando quase em uma verdadeira aula sobre o funcionamento interno da Controladoria e do sistema público. Durante mais de uma hora, tivemos espaço para tirar dúvidas, conversar e aprender sobre as aplicações de indicadores na cidade e também as estruturas e ações da Controladoria. Nossas perguntas foram levadas a sério e respondidas com paciência e clareza, o que tornou a experiência ainda mais rica e motivadora. Criar pontes junto a órgãos tão importantes para nossa cidade é um grande passo para o CAMPP e para os membros, que podem crescer juntos e contribuir com suas experiências à gestão pública. A visita me fez enxergar o serviço público com ainda mais admiração e despertou em mim uma vontade genuína de, no futuro, fazer parte desse ambiente e contribuir com uma equipe como aquela que nos acolheu. Foi, sem dúvida, uma experiência muito positiva, especial e que me fez refletir sobre os caminhos que quero trilhar.

Indicadores e capacitação de gestores: pilares para a construção de políticas públicas efetivas

Indicadores e capacitação de gestores: pilares para a construção de políticas públicas efetivas Em 15 de outubro de 2025 por GT de Indicadores.   Os indicadores sociais são ferramentas essenciais para transformar dados em conhecimento e conhecimento em ação. Quando bem interpretados, revelam desigualdades, orientam políticas e fortalecem decisões baseadas em evidências. No entanto, sua efetividade depende da formação de gestores capazes de ler, analisar e aplicar criticamente essas informações, garantindo que as políticas públicas dialoguem com as reais necessidades dos territórios. O Grupo de Trabalho de Indicadores do CAMPP nasce com o compromisso de capacitar gestoras e gestores públicos na leitura crítica e no uso estratégico dos indicadores, fortalecendo uma cultura de gestão baseada em evidências e conectada à realidade dos territórios. Rafaela Castilho Miranda e Sofia Galvez Nogueira Os indicadores sociais configuram-se como instrumentos analíticos destinados à tradução de aspectos complexos da realidade social. Ao sintetizar informações em medidas comparáveis, permitem identificar desigualdades e transformam informações sobre a realidade em parâmetros capazes de orientar decisões públicas Mais do que simples registros estatísticos, os indicadores expressam construções teórico-metodológicas que articulam ferramentas de leitura e interpretação social, permitindo identificar desigualdades, monitorar mudanças e avaliar resultados, constituindo, portanto, uma ponte entre diagnóstico e ação. Contudo, seu verdadeiro valor não está apenas nos números que produzem, mas na capacidade de revelar lacunas e orientar soluções concretas nas políticas públicas. Em um cenário de crescente complexidade social, os indicadores tornam-se essenciais para compreender onde as ações de políticas públicas podem realmente impactar, onde precisam ser reforçadas e como podem alcançar maior efetividade. Ao fornecer uma base para a formulação e a avaliação de políticas, os indicadores colaboram diretamente com gestores e pesquisadores, que passam a dispor de instrumentos mais precisos para compreender e intervir na realidade. Assim, fortalecem a prática profissional e ampliam a capacidade do poder público de planejar e decidir com base em evidências, superando abordagens intuitivas ou fragmentadas. E, com esse entendimento, o Grupo de Trabalho de Indicadores do Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas (CAMPP) nasce com a proposta de apoiar e qualificar gestores públicos no uso e na interpretação de indicadores. A iniciativa busca fortalecer a capacidade dos gestores de transformar dados em decisões concretas, promovendo uma gestão baseada em evidências e políticas públicas mais eficazes e conectadas à realidade social e crítica. *As políticas públicas desempenham papel central na construção e na manutenção do Estado brasileiro, funcionando como instrumentos de concretização dos direitos sociais e de redução das desigualdades estruturais. Entretanto, para que essas políticas tenham legitimidade e validade, é imprescindível que sejam sustentadas por uma base científica sólida. Nesse sentido, os indicadores sociais constituem não apenas ferramentas auxiliares, mas sim o alicerce das políticas públicas baseadas em evidências. Como lembra Jannuzzi (2002), os indicadores transformam conceitos abstratos – como pobreza, qualidade de vida, acesso à educação ou à saúde, em dimensões concretas, passíveis de mensuração e acompanhamento. Eles fornecem a materialidade necessária para que possamos identificar o que precisa ser mudado, compreender o que funciona e reconhecer aquilo que não produz efeitos desejados. A relação entre políticas públicas e indicadores é, portanto, de construção conjunta. As políticas até podem prescindir sem indicadores, mas com eles, conseguem reiterar com muito mais propriedade para legitimar sua formulação, implementação e avaliação. Trata-se de uma relação que garante tanto a credibilidade da ação estatal quanto a efetividade do diagnóstico social. Em outras palavras, políticas públicas sem indicadores correm o risco de se apoiar em percepções impressionistas ou agendas circunstanciais, enquanto indicadores desconectados das políticas se reduzem a estatísticas possivelmente incapazes de produzir transformação social. É nesse ponto que se evidencia o papel primordial dos indicadores como base para a própria existência e credibilidade das políticas públicas. Se reconhecemos essa relação, torna-se igualmente necessário refletir sobre quem são os profissionais responsáveis por interpretar e manejar tais instrumentos. Para que indicadores cumpram sua função social, é fundamental capacitar gestores públicos capazes de lê-los, conduzi-los, analisá-los e, sobretudo, criticá-los. Essa capacitação não se limita à transmissão técnica de métodos estatísticos: envolve a construção de uma leitura interdisciplinar que articule dimensões sociais, econômicas e políticas. Como aponta Pereira (2011), a interpretação crítica dos indicadores exige que se vá além da superfície numérica, compreendendo também as escolhas metodológicas e os contextos que moldam sua produção. Assim, formar profissionais nesse campo significa não apenas oferecer repertório técnico, mas também fomentar pensamento crítico, ampliando a capacidade do Estado de desenhar e avaliar políticas que dialoguem efetivamente com a realidade. Esse desafio se coloca de maneira ainda mais aguda no nível municipal, onde a maior parte das políticas públicas é de fato implementada. Dados mostram que cerca de 70% dos municípios brasileiros são de pequeno porte, o que levanta a questão: como estão sendo capacitados os profissionais responsáveis pela gestão nesses territórios? A carência de equipes técnicas qualificadas e a ausência de repertório para lidar com indicadores fragilizam a capacidade dos municípios de se apropriar de uma agenda de políticas baseadas em evidências. Essa limitação impacta diretamente a efetividade das políticas, perpetuando desigualdades regionais e sociais. Por isso, formar gestores preparados para atuar nesses contextos é uma tarefa urgente e inadiável, que demanda tanto iniciativas como o compromisso de centros de pesquisa como o CAMPP em promover diálogo, cursos e espaços de formação crítica. A leitura e utilização de indicadores nos municípios revelam um questionamento interessantel: será que os municípios estão, de fato, preparadas para receber e responder às demandas de seus moradores? Em muitos casos, o planejamento urbano, as políticas de habitação, transporte e saneamento ainda se estruturam de forma reativa, e não preventiva, além de, muitas vezes, a ausência de gestores capazes de interpretar adequadamente os dados disponíveis pode impactar diretamente nas aplicações de políticas públicas. O Censo Demográfico, por exemplo, fornece informações detalhadas sobre crescimento populacional, migração, condições de moradia e composição socioeconômica — dados que poderiam orientar a expansão de serviços e a formulação de políticas locais. No entanto, quando esses dados não são compreendidos ou aplicados de maneira estratégica, as